Cassanices
   Os perigos da palavra escrita

Acho que foi Esopo quem disse que a palavra tem um poder extraordinário. Por isso mesmo, para correr o menor risco possível, é preferível sempre falar a escrever. Como não levo muito jeito com as palavras proferidas pela boca, arrisco-me a escrevê-las em silêncio. Mas isso é terrivelmente perigoso. Melhor mesmo é falar, conversar, dizer as coisas. Pois assim, a despeito do bom ou mau efeito, sobretudo quando se trata de mau efeito, a verdade é que o que se diz, tudo mesmo, é volátil. É como um peido. Uma hora o fedor se dissipa e pronto, tudo volta ao normal. Podemos, inclusive, alegar embriaguês, estresse ou problemas de toda ordem por ter dito alguma bobagem. Mas, quando as bobagens são escritas, aí a coisa complica sobremaneira. Armei grandes encrencas em minha vida devido a esse meu defeito. Além de tudo, para piorar, gosto de escrever cartas e agora, aliciado pelas benesses da tecnologia, sou um fervoroso adepto dos e.mails. Escrevo para amigos e, em especial, para uma mulher que, infortunamente, já não sei mais imaginar meus dias sem ela. Isso também não é nada bom, mas tudo que é ruim, ruim de verdade, é absolutamente inevitável.

Pois bem, enviei meu e.mail num dia particularmente desfavorável para qualquer arroubo romântico. Atravessava, na verdade, aqueles dias em que o homem está mais perto de seus cavernosos instintos animalescos. Nas fêmeas chamam esse estado de demência espiritual de cio, já nos homens, não sei, se eu for definir apenas como tesão seria como colocar panos quentes, diminuir substancialmente tal sensação que me parece, de fato, indescritível, tamanha é sua veemência e pujança libidinosa. Também não tenho qualquer embasamente científico para generalizar, mas me assusta demasiadamente sequer imaginar que tal manifestação, suponho que demoniaca, particularmente por ser incontrolável, seja algo inerente a poucos, entre os quais, está inserida essa pobre alma que vos escreve.

Comecei então a eletrônica missiva imediatamente descrevendo o que havia imaginado há minutos e que me levara a deleitar-me com o gozo da masturbação. Eu poderia, certamente, ter sido mais sensível e delicado, quiça ao menos mais terno, mas não, o estado insandecido, mesmo após ter me saciado falsamente, me fez ir direto e lascivamente às descrições de como eu a imaginava. Pormenores que não ouso reproduzir aqui pois agora, ao ler sua resposta, quase chego a me envergonhar de estar vivo. Mas na hora, naquele momento de debilidade carnal, apenas dedilhei freneticamente as macias teclas do meu micro e ali fui desenhando, por meio das palavras, cenas que, talvez, nem mesmo o mais chulo filme pornográfico seria capaz de reproduzir.

A resposta demorou dois dias. 48 horas de angústia. E minhas insistentes ligações telefônicas repousaram todas na sua fria caixa postal de recados. A gente nunca sabe ao certo exatamente onde diabos erramos, mas o silêncio da mulher amada é atroz. Mudas, elas nos torturam muito mais que quando, em casos mais amenos, soltam seus ensurdecedores berros histéricos. Quando uma mulher explode contigo, grita e esperneia, é um bom sinal de que as coisas caminham para o entendimento. O contrário, pode ter certeza, o caso é de uma gravidade excepcional. O silêncio da fêmea se dá quando a falha do macho está bem próxima do imperdoável. A mulher é um ser formidável, mas complexo demais para ser analisada e compreendida por humanos. Seu e.mail, lacônico porém frio e letal como um iceberg, resumidamente dizia isso: "nunca mais me escreva. E em vez de me confundir com uma, vá procurar uma puta, você só pode estar doente".

A sensação que se abateu sobre mim foi de uma tristeza avassaladora. Pois eu, por diversas vezes, suportei estoicamente seu doce cio e sua febril tpm que, sempre depois, quando era ela dobrada pela providencial cólica, que não é outra coisa senão o castigo dos deuses pelos maltratos que seu lado diabólico imputava a mim, eu cuidava dela com remédios, mimos e carinhos. Mas diante de seu tesão, na hora que a filha da puta queria foder como uma cadela, ali estava eu, pronto, viril e docemente servil à sua volúpia. Agora, por um e.mail meu, por palavras jogadas ali que não retratavam outra coisa senão o meu direito de também externar meu lado primitivo de reprodutor, recebo em troca essa insidiosa e humilhante resposta. Entretanto, devo admitir e reconhecer a milenar sabedoria de Esopo: a palavra tem sim poderes até sobrenaturais. Tivesse eu, em vez de ter escrito, dito tudo aquilo para ela, na hora apropriada do sexo, e estaríamos perfeitamente bem. Mas não, escrevi. Pior, ela, em resposta, também me escreveu. E assim, na escrita, uma longa e outra curta, terminamos de forma melancólica. Até que tentamos voltar, mas o orgulho de ambos falou mais alto.         

 

    

  



Escrito por Cass às 10h17
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