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O homem sem buceta
Incontáveis dias sem trepar transformam homens em selvagens. Sim, é como se estivéssemos nas imundas trincheiras da guerra. Pensamos em morte, matar, morrer, feridas, tiros, facadas. As coisas tomam nuances perversas. O espírito nos abandona. Resta carne, nervos tensos e ossos. O testosterona está ali, como uma bomba, injetando adrenalina em cada músculo. Conheço homens que passam muito bem sem sexo. Ficam tranqüilos, mente sã, elevam a alma, rezam, fazem peregrinações e jejuns. Porra, eu fico puto. Há duas coisas que, sem elas, fico muito próximo de um pobre diabo atormentado. Falta de sexo e comida. De preferência carne. Gosto de carne. Tenho caninos afiados e vigorosos para destrinchar carne. Foram confeccionados para morder. Com força. Também me agrada o gosto ferroso de sangue. A falta de sexo faz com que a bomba funcione com mais tensão de modo que durmo pouco, tenho quase nenhuma paciência e vivo propenso a encrencas das mais variadas espécies, particularmente, brigas. Um ser, essencialmente, primitivo. Aqueles homens das cavernas, decerto, fodiam pouco. Isso nos abrutalha demasiadamente.
Passo uma boa parte da manhã me exercitando. Duzentas abdominais, cinqüenta flexões. Bufo, os pulmões pedem ar. Descanso. Pego os alteres, faço seqüências de 100 trabalhando bíceps, tríceps e sei lá mais o que. O importante é suar, se não fodendo, que seria o ideal, ao menos se exercitando. Os músculos ficam tensos. Tudo ao som de Motorhead. Os rifs das guitarras me animam. Faço mais abdominais, depois mais flexões. Me sinto viril. Vou andar pelas ruas da periferia. Shorts, camiseta regada, tênis. Sinto os braços e pernas vibrarem, sinto-os rijos, saudáveis e fortes. Sigo às largas passadas. O próprio macho percorrendo a bruta savana da metrópole em busca de sua fêmea no cio. Pronto para matar se for preciso. Vou em frente, respiração compassada. Tudo em ordem. Nenhuma dor. Fôlego perfeito. Mas contorno o parque para evitar as pessoas. Me parecem macilentas, doentes. Entro no cemitério. Ninguém. Melhor assim. Sinto-me mais vivo no cemitério. Aumento o ritmo dos passos. Não penso em nada. Apenas em queimar energia. Gastar testosterona.
Onze horas. Volto, o suor escorre, cheiro meu braço. Lembro da fêmea na cama e logo busco outros pensamentos. É preciso ter paz, senão enlouquecemos. Mas não estou cansado. Entro no condomínio de minha irmã e vou direto para a piscina. Bem que poderia ter uma boa alma feminina desocupada por ali. Uma gostosa solitária e triste em busca de uma tarde de sexo selvagem. Mas não há ninguém. Apenas eu dando minhas braçadas. Relaxando, se exercitando, relaxando de novo. O zelador faz cara de reprovação, mas me tolera, pois deve favores à minha irmã. Eu noto, finjo ignorá-lo, embora sinta vontade de estrangulá-lo. É mais jovem que eu, deve ter uns 30 anos, parece bem, mas eu poderia destroçá-lo com as mãos. É esse o sentimento que se avulta em mim. A vontade de matar outros machos. Isso me assombra a noite, mas durante o dia, me mantém vivo e feliz. Enfim me largo em uma espreguiçadeira e relaxo de vez. Agora é o carinho do sol por alguns minutos dourando um pouco minha pele. Como narciso, aprecio o brilho da pele úmida e os meus próprios contornos. Ignoro meus defeitos, curto minhas perfeições. E gosto do que vejo. Foda-se se a vaidade é uma avareza, um defeito. Do sexo também falam mal, e eu gosto pra caralho de trepar.
Para fugir do câncer de pele não fico mais que quinze minutos ali. Seco pelo vento e sol, visto a camiseta e ainda dou uma boa olhada despretensiosa ao redor na gana de avistar uma fêmea. Bem que podia mesmo aparecer alguma mulher. Mas que nada. Ninguém a não ser um bando de adolescentes que começa a se mover para entrar na água. Três garotinhas e quatro rapazes. Todos bem formados e com aspecto saudável. Acho que por volta dos 15 ou 16 anos cada um. Duas são ligeiramente gordinhas, todavia sensuais, e a outra ostenta a perfeição natural da idade. Bunda, cintura, cabelos, coxas. Tudo na mais perfeita ordem. Pronta para o glamour do sexo. E o melhor a fazer é mesmo dar o fora dali desejando, no pensamento, sorte aos garotos. Tive meus bons tempos de adolescente, e me dei muito bem. Não sei se foi impressão, mas acho que a bonitinha sorriu lascivamente pra mim. Segui meu caminho. Prefiro pensar que garotinhas assim não sabem foder e, mesmo se soubessem, te foderiam a vida. Apenas por brincadeira pensei: “fosse em épocas imemoriais, meus instintos me levariam a esganar esses quatro pirralhos e trepar com as três garotas”. Muito tempo sem trepar causa danos mentais piores que insolação.
Em casa, depois de um bom banho, e copo de uísque entre grandes gelos em mãos, me animo a escrever. Há um livro começado e nunca terminado. A história flutua em mim, é desesperador, anda por onde ando me assombrando. Mas preciso de uma buceta para poder botar as coisas no computador. Para organizar as idéias, pra dar lógica às seqüências e fatos. Para não embaralhar as letras, para não tornar tudo confuso e abstrato. Será que Sartre fodia? Não sei, acho que não devia foder muito não. O cara era abstrato demais. Não posso fazer comparações. Há quem, sem sexo, escreva muito bem. Mas todos precisam de algo para escrever. Drogas, álcool, paz, montanhas, aventuras. Eu preciso de bucetas. É bem simples. Poderia até pagar por uma. Há boas ofertas na cidade. O que não há como comprar é paixão. Bem, estou diante do micro agora. A branca tela do monitor parece que zomba escandalosamente de mim. As palavras não saem, mas as idéias continuam a fervilhar e a me assombrar a alma. É certo que passarei mais uma noite sem trepar nem dormir. Amanhã vou aumentar a dose de exercícios. Um dia encontro a tão almejada buceta inspiradora. E assim concluo meu livro.
Escrito por Cass às 17h37
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