Cassanices
   Amor empobrece

Naqueles dias o dinheiro andava curto. Sempre estive na linha da pobreza, mas nunca passei fome ou fui miserável. Porém, experimentei o que realmente significa privações durante um bom tempo. Realmente sem grana. Poucas vezes me vi assim. Meu consolo foi pensar que os grandes gênios da literatura se foderam muito mais que eu em questões financeiras. Ou, pelo menos, diziam que se foderam. Todo escritor é um inescrupuloso mentiroso profissional. Portanto acreditar nessa raça é o equivoco mais infantil que uma boa alma pode cometer.

Temos que reconhecer, é muito curioso como, na literatura, parece que ser esfarrapado e fodido confere ao cara uma romântica aura mágica. Seria como, no início do Século, morrer de tuberculose. Poeta bom tinha que morrer de tuberculose. Depois, no Século 20, veio o culto à miséria e às drogas. Ser bêbado passou a ser a condição indissociável de talento literário. Me parece que até hoje é assim. Senão você passa a ser taxado como autor burguês. Não ser alcoólatra passou a ser algo como ter o espírito fraco. É uma tolice isso tudo. Uma grande estupidez essa coisa de que, pra ser escritor, você tem que ser diferente ou marginal. Os seres-humanos são tão iguais que chega a dar nos nervos. Somos uma raça monótona e previsível. Por essa razão alguns artistas buscam algo que os diferencie. Normalmente, como são desprovidos de muita criatividade, andam esfarrapados, bebem pra caralho ou vivem sob a ditadura dos entorpecentes.

Fico longe dessa turma. Como não me sinto um escritor, e prefiro ser jornalista, ganho meu dinheiro e não preciso encher a cara em bares imundos até construir uma cirrose. Ninguém me convence a tomar vinhos baratos e tampouco preciso ter crises de depressão e pensar em suicídio. Não preciso se rabugento e nem mesmo viver como um pária da sociedade. Também não tenho nenhuma razão para me hospedar em hotéis decadentes e trepar com putas doentes. Bem, mas devo admitir, mesmo contrariado, passei um tempo em Curitiba numa espelunca que ousaram chamar de hotel. Foram quase dois meses ali. Pagava 150 paus por mês por um quartinho mal ventilado em um prédio poeirento que parecia soterrado sob um viaduto. A noite toda o tormento do barulho de carros. Só dormia com remédios e nada de útil produzi além de umas cartas pedindo emprego e oferecendo frilas em jornais locais e outra carta que nem cheguei a enviar. Dezenas de dias de genuína merda financeira. E, paradoxalmente, fui parar ali devido a uma promessa de ganhar 10 mil reais. O troço não deu certo e resolvi ficar por um motivo que por muito tempo me envergonhei em admitir mas agora resolvi contar: por amor.

Conheci uma garota em São Paulo. Estava fazendo uma reportagem sobre a desapropriação de uma creche e lá estava ela. Trabalhava para uma organização sem fins lucrativos que visava ajudar aquela gente fodida. Tirei umas fotos, entrevistei um e outro e depois gastei meu tempo em observar aquela mulher que usava uma calça jeans bem larga mas não o suficiente para dissimular a harmonia de seu corpo. Ela caminhava de um lado a outro, parecia nervosa, e nessa pressa sua bunda vibrava, seus peitos dançavam rijos e sua tez suada conferia em sua face rosada um brilho leitoso. Perguntei a uma freira quem era aquela e apontei pra gostosa. Ela me explicou o que acabei de dizer aí em cima. Então eu disse: “Quero entrevistá-la”. E a filha da puta da freira imediatamente chamou um sujeito alto, asqueroso e falador que era, segundo a religiosa, o chefe da porra da organização. Aquilo me tomou tempo mas logo inventei que queria traçar um perfil de um voluntário. Ele então chamou aquela furiosa garota deslumbrante e brilhante. Anna era seu nome. Assim, com a letra n dobrada. Tirei fotos, ela posou, sorriu com seus dentes infantis e lábios voluptuosos mas o grotesco diretor da ONG ficou ali, estático, de ouvido. O cara devia ser afins dela. Mas fui hábil. Perguntei se ela queria que eu lhe mandasse as fotos, ela disse que sim, então peguei o fone e cai fora.

Conversamos dezenas de vezes antes de tomarmos um bom vinho no bar do terraço Itália assistindo no horizonte infinito a noite prateada de Sampa. Ela estava com um vestido preto e um decote desconsertante. À mesa falou de seu trabalho, de sua militância político-social, de suas viagens pela África, de seus cursos e dos problemas que assolam o país. Sou um ótimo ouvinte. Peco apenas pela indiscrição de meu olhar que, mesmo sob meus severos cuidados, insistentemente, creio que na verdade, instintivamente, repousavam em seu decote ou, como feitiço, em sua boca úmida. Estava usando um batom, mas era algo tão sutil que parecia apenas que seus lábios ganhavam vida própria. Claro que prestei atenção em tudo o que ela relatava, mas não pude disfarçar meu desejo. Fiz menção de pedir a segunda garrafa quando ela, subitamente, de surpresa mesmo, me disse: “quero beber outro vinho contigo em outro lugar”. Sim, disse isso mesmo e com uma voz e um olhar tão lascivo quanto determinado. Reside exatamente aí a divindade feminina.

Terminamos a noite abraçados em sua cama de solteiro como dois antigos amantes. Tomamos um café da manhã simples juntos, ela me serviu e me olhou com carinho e intimidade, e nos despedimos com um beijo. Nos encontramos intensamente por duas semanas, quando ela me contou que voltaria pra Curitiba, sua terra. E partiu já no dia seguinte. A gente se falava diariamente, mas era preciso o toque, o cheiro, a carne. Dois meses depois ela me escreve sobre um projeto social que ela coordenava e que uma produtora de cinema faria o vídeo sobre aquilo. Queriam um roteiro ou algo assim e ela me indicou. Falei com os caras. E, verbalmente, acertamos tudo. Dez mil reais por duas semanas de trabalho em Curitiba. Perfeito. Dinheiro fácil e quatorze dias de foda intensa. Chegando lá descobri, no segundo dia, que o dono da produtora estava comendo a Anna. Ela ficava comigo e com ele e ele, talvez mais tolo que eu, sabia e concordava com isso. Eu os flagrei aos beijos na produtora. Caralho, ela fodia comigo a noite toda e, durante o dia, ficava com o sujeito enquanto eu escrevia a porra do roteiro. Foi a primeira vez que me senti verdadeiramente corno. Todo homem tem seu dia de corno. Aquele foi o meu dia. A reação foi dar um tapão na cara dela o que a fez rodopiar e estatelar com sua linda bunda ao chão. Ficou ali chorando com um vergão imenso no rosto. O tal sujeito, daqueles tipos que usam óculos com armação retangular e grossas hastes pretas, bateu com as duas mãos em meu peito e me chamou de covarde. Eu não pretendia fazer nada com ele mas ele gritou alto e eu odeio gritos estridentes. Então apliquei-lhe um direto no nariz, errei o cálculo e exagerei na força. Pegou entre o nariz e o olho. Fez um estrago feio. O cara foi para o hospital, Anna para a delegacia e eu fichado no DP.

Escrito por Cass às 10h10
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   continua...

Fiquei sem foda e sem dinheiro em Curitiba. Mas a cidade me parecia boa. Havia um festival de teatro. Muitas atrizes circulando. Os bares lotados de mulheres ávidas por sexo. A gente sente isso na alma. Tirei minhas coisas da casa de Anna e me transferi para essa merda de hotel barato no velho centro com quinhentos reais no bolso. Eles me pagaram por dois dias de trabalho. Adiantei 150 pro hotel pelo mês. O resto era para viver. Mas as coisas, mais uma vez, não saíram como o planejado. Subitamente perdi o interesse por mulheres e bares. Passei dias trancado naquele exíguo e fedorento quarto apenas lendo. Saia para comer e tomar alguma coisa. Meu corpo queria sair e curtir a cidade, mas minha alma não concordava com aquilo. Nesse conflito a alma sempre vence e o corpo padece. Escrevi e envie cartas pedindo emprego. Mas não havia qualquer razão para eu ficar na cidade. Quarentas dias ali, quarenta reais no bolso. Pensei todos os dias em Anna. Escrevi a ela uma longa carta. Não entreguei. Meu amigo me enviou cem reais para minha passagem de volta à Sampa. Trouxe a carta comigo. Agora a releio e parece que consigo sentir o gosto frutado do beijo de Anna e o perfume ferroso de sua pele de santa.   

 

 

 



Escrito por Cass às 10h10
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