Cassanices
   Fim de semana no interior

Dinão chutava sua moto sem dó. Nunca antes havia visto alguém desferir tantos e impiedosos pontapés em uma Harley rara. Foi uma incrível série de cinco ou seis furiosas bicas que botou abaixo o pára-lama dianteiro e deixou marcas negras da bota no tanque amarelo. Depois ele dava voltas mancando em torno da moto, fungava e, por fim, se abaixou e fuçou nas entranhas do motor. Fiquei ali, assistindo e tomando cerveja, ao lado da minha moto. Estávamos num posto na Dutra e uns caminhoneiros riam da cena enquanto uma mulher puxava rapidamente seus filhos para dentro do carro. A moto estava com problemas no carburador. Falhava muito e não desenvolvia seus mil e duzentos cavalos de potência. Do jeito que andava mais parecia que era propelida por uns trinta esquálidos pangarés. Paramos no posto pra averiguar, mas eu não entendo bulufas de mecânica. Portanto apenas peguei uma latinha de cerveja e fiquei ali, bebendo e esperando o veredicto que veio na forma de um “foda-se, vamos continuar assim mesmo”. Bem, ajudei-o a amarrar o pára-lama abatido, ele botou uma latinha de óleo no tanque de combustível e partimos de forma ruidosa mas num ritmo desesperadoramente lento. A velocidade daquela égua velha não passava dos 80 quilômetros por hora. Vez por outra eu acelerava um pouco mais para driblar a monotonia. Chegamos, por fim, a Resende, após umas cinco horas de tédio na estrada.

Rapidamente arrumamos uma espelunca barata para dormir. Trinta reais a diária, com café da manhã. Um hotel antigo, do tempos auges dos tropeiros. Por esse preço, nem pechinchamos e pegamos dois quartos e com camas de casal. Era um daqueles sábados letárgicos com sol fritando os miolos, duas e meia da tarde, já tínhamos comido pastel e caldo de cana na estrada, de modo que a melhor coisa a se fazer era dormir. Claro, o quarto era um forno, mas o ventilador, apesar de barulhento, funcionava. Acordei às cinco, tomei um banho, desci e fui direto para um boteco em frente à praça onde estava o hotel. Pedi cerveja e fiquei ali, curtindo a cena bucólica. Praça, igrejinha, o eloqüente e barrento rio Paraíba e umas mocinhas bundudas transitando tranqüilamente com seus shortinhos cuidadosamente enfiados bem no meio do cu. Não sei, não contei, mas arrisco o palpite que havia centenas dessas espécies. Notei que elas perambulavam sem um destino, apenas circulavam pois as que mais me chamaram a atenção, sim, as mais gostosas, passaram pelo outro lado da rua mais de uma vez. Elas andavam em dupla ou em trio. Sempre assim. E eu não sou o que se poderia chamar de sujeito atraente, tampouco sou jovem, mas elas, inclusive as bem novinhas, me lançavam olhares, daquele tipo, que todo homem reconhece, que significa “cara, to com muita vontade de uma rola”.

Minha idéia era partir no dia seguinte após o almoço. A gente faz isso de vez em quando. Sai de moto, roda por alguma estrada e pára quando cansa em alguma cidade. É uma diversão, uma maneira de aliviar as tensões. Então tínhamos uma boa noite à toa para ficarmos ali apreciando aquilo tudo. Quando o garçom trouxe a segunda cerveja o Dinão apareceu. O Dinão é um sujeito bacana, meu grande amigo. O problema é que ele tem uma espantosa cara de psicopata. É vesgo e tem impressionantes 32 graus de miopia. Nunca vi um cara pilotar moto sendo, tecnicamente, cego. Mas ele toca aquela Harley de 1947, com câmbio na mão e o guidão no céu, com maestria e, muitas vezes, bêbado. É sua paixão. Acho que seu grande amor, pois vira e mexe eles brigam feio. Trocam porradas. Então, é amor mesmo. Chegou, sentou, encheu seu copo, botou um cigarro na boca e ficou ali, estirado na cadeira em silêncio. “Nunca vi tanta mulher gostosa de uma vez só como tem aqui”, eu disse. “Aqui aonde, não tem ninguém nessa porra de bar”, ele respondeu. Eu o conheço há mais de trinta anos e tudo o que precisei fazer foi ajudá-lo a ajustar seu foco, mas o sol, já se pondo bem na nossa frente, e embora fazendo um verdadeiro espetáculo na margem direita do rio, o cegava completamente. “Quando o sol baixar você vai entender o que to te dizendo”, eu disse. “Daí que não vou enxergar mais merda nenhuma”, ele respondeu. “Respire fundo, sinta a delicada fragrância das bucetas”, foi o que me ocorreu. E ele abriu as narinas, sugou o ar com ímpeto, encheu os pulmões vigorosamente e repetiu o exercício por mais cinco ou seis vezes. “Bucetinhas no cio”, suspirou. Ficamos bebendo ali por mais duas horas. Cachaça e cervejas. Nenhuma garota sentava-se ali, mas a maioria passava diversas vezes pela nossa frente. Algumas nos lançavam sorrisos lascivos e o Dinão erguia o copo para aquelas que, ao me perguntar, eu dizia: “são gostosas, essas valem a pena”. E então ele abria o sorriso e dizia “amém, você é muito linda”. Quanto mais bebíamos, mais inventivas e sem sentido ficavam suas frases em homenagem às garotas bonitas que, aparentemente, desfilavam unicamente para nós. “Você merece o céu, meu amor”, “sou seu escravo, quero apenas te amar”, “lamberia o tutanos de seus ossos” e outras tolices que não me lembro, algumas, inclusive, espantosamente de baixo calão. Era certo que aquilo não faria efeito algum, era mais provável que as afugentaria, mas estávamos altos e eu não me importava. Queria apenas relaxar.

O movimento foi baixando aos poucos. Oito da noite e aquilo virou um ambiente fantasmagórico. Espectros andavam rapidamente e garotas, como que atrasadas, se apressavam para dar o fora. Era como se um monstro, a partir daquela hora, passasse a dominar tudo por ali. Perguntei ao dono do bar que merda estava acontecendo. Ele apenas me disse que era assim mesmo. O pessoal se recolhia cedo. “Mas hoje é sábado”, eu disse. “Hoje a gente fica até as dez”, ele respondeu me deixando na mesma. Pedimos uma pizza que ele propagandeava numa plaquinha e continuamos a beber e mijar. Tudo deserto. Uns cinco caras negros chegaram, nos cumprimentaram, pegaram uma mesa e se ajeitaram ali. Depois chegou um alemão esfarrapado e ficou parado no balcão. Logo em seguida entrou outro grupo, mais eclético racialmente: cinco homens sendo que o mais velho tinha aspectos de boliviano. Parecia o Evo Morales, só que muito mais inchado. Os outros quatro eram jovens mal encarados e visivelmente atormentados com alguma coisa porém, ao que parecia, respeitavam e temiam o estranho com cara de boliviano. Comemos a pizza, tomamos mais duas cervejas e falamos de viagens. Não havia mais uma única mulher circulando. O doce cheiro de buceta cedera lugar a um fétido odor de suor de macho fodido. “Vamos sair fora dessa porra de lugar, aqui ficou uma merda”, eu disse para o Dinão. “Ééé”, ele me respondeu. Pagamos e caímos fora. Nove da noite, dois caras bêbados, sem nada pra fazer, cidade deserta e sem sono. Acendi o beck e resolvemos caminhar um pouco por uma triste avenida escura que margeava o rio. Não encontramos nada além de insetos que nos vampirizaram durante todo o trajeto cambaleante. Fosse um filme ou um conto de Pedro Juan certamente treparíamos com algumas prostitutas deixadas para trás. Na história de Anais Nin, talvez, nos metamorfosiaríamos em duas bichas. O fato é que voltamos ao hotelzinho de merda, escutei o escandaloso ronco do Dinão até as quatro da manhã e, foi nessa hora, que consegui pegar no sono.             



Escrito por Cass às 15h31
[] [envie esta mensagem]


 
  [ ver mensagens anteriores ]  
 
 
HISTÓRICO
 22/04/2007 a 28/04/2007
 15/04/2007 a 21/04/2007
 08/04/2007 a 14/04/2007
 18/03/2007 a 24/03/2007
 11/03/2007 a 17/03/2007
 04/03/2007 a 10/03/2007
 11/02/2007 a 17/02/2007
 04/02/2007 a 10/02/2007
 21/01/2007 a 27/01/2007
 31/12/2006 a 06/01/2007
 17/12/2006 a 23/12/2006
 10/12/2006 a 16/12/2006
 19/11/2006 a 25/11/2006
 12/11/2006 a 18/11/2006
 05/11/2006 a 11/11/2006
 29/10/2006 a 04/11/2006
 22/10/2006 a 28/10/2006
 15/10/2006 a 21/10/2006



OUTROS SITES
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


VOTAÇÃO
 Dê uma nota para meu blog!