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Saco cheio de mim
Passei um bom tempo sem escrever nada. Neste período fiz coisas mais interessantes: viajei e trepei. E as duas coisas, infelizmente, não estão relacionadas. Se eu fosse uma garota, eu foderia toda vez que viajasse. Como homem isso fica mais complicado, pois temos que cantar e seduzir pra poder trepar. Não sou bom nisso. Franco demais para seduzir, e puto demais para cantar. E as poucas regras que sigo são as de conduta, de modo que não encontro uma garota interessante e vou logo dizendo: "vamos trepar?". Seria perfeito se isso fosse possível, mas não pega bem. Temos que ser cavalheiros e tudo mais. Falar de vinho, literatura e atualidades. É uma merda. Deveria ser o contrário: primeiro uma boa foda, depois, curtindo o pós-gozo, aí sim discorrer sobre assuntos interessantes.
Deve haver alguma explicação psicanalítica para meu atual estado de espírito. Me sinto um sujeito desinteressante. Não estou me suportando, me acho um chato. Estou cansado de minha companhia. Isso seria falta de amor-próprio? Mas que porra de amor suporta tanto tempo uma pessoa? Convivo comigo há 42 anos. E estou meio de saco cheio de mim mesmo. E isso nem é papo de suicida. Não, não faria isso. É que estou meio puto comigo. Sem razão, apenas puto. Talvez seja essa intransigente insônia. Essa coisa de não dormir me faz passar mais tempo comigo mesmo. Quem dorme tem esse alívio de si mesmo por umas boas horas. Eu não, fico sem dormir por um tempão. E, então, passo mais tempo comigo mesmo! Um saco.
Queria estar ao lado de um grande amor agora. Seria perfeito. Sentir a pele fria e a textura sedosa da minha fêmea. Ah, que maravilha. Ser desejado por ela, e ficar ali, na cama, com ela ronronando e roçando-se em mim. Lembro disso. Um dia tive isso. Sim, desfrutei disso tudo por um bom tempo. Depois acabou. Milagre acaba, bons vinhos acabam. As coisas boas são voláteis demais. Um dia seu grande amor resolve te cobrar uma porção de coisas. E você, geralmente um idiota, só consegue atender parcialmente. A gente nunca consegue ser bom por inteiro. Nem mesmo quando nos esforçamos muito. Os defeitos borbulham, transbordam e um dia falam mais alto que as qualidades. O amor é como esquentar o leite. Com o tempo ele vai subindo, espumando e daí transborda e apaga o fogo.
Conheci uma garota. É possível que eu a ame. E esse é meu maior temor. O amor nos torna demasiadamente idiotas. Já a falta de amor nos torna amargos, insones porém sensatos. E os sensatos vivem melhor. Talvez vivam até mais tempo. Tenho certeza que, até por nossa necessidade de sobrevivência, temos um limite para o amor. Não amamos tanto e tantas vezes. Diferente do tesão, que é instintivo, creio que o amor foi inventado para causar problemas. Ah, que tolice. Muito tempo sem trepar nos faz elucubrar sobre essas coisas todas. Por outro lado me sinto mais puro. E, sobretudo, mais preparado para uma paixão. Mentira. Preciso ser franco. Uma boa trepada me faria muito bem. Por ora, ainda fico na punheta. Mas minha mão não me suporta. Ando de saco cheio de mim.
Escrito por Cass às 00h18
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