Cassanices
   Mulheres incompreensíveis e o grande fodedor

Fernando é um de meus mais próximos amigos. A gente se vê toda semana, bebe junto e um segura a barra do outro. Mas ando cansado dele. É um tipo muito singular de sujeito, o Fernando. Esteticamente eu diria que ele se enquadraria perfeitamente no padrão de feio. Mas isso não é o problema. Eu não tenho amigos bonitos. Há uns cinco ou seis sujeitos que são realmente meus amigos. E são todos feios como eu. Não diria asquerosos, tampouco repugnantes. Somos, todos, dotados de uma certa desarmonia estética com um leve, quase imperceptível, toque de elegância. Um certo charme que nos ajuda, eventualmente, a agradar uma ou outra mulher. O que é bem evidente é que não somos simétricos, como vejo por aí galãs e caras realmente bonitos. Curiosamente, e não sei a razão disso, nenhum de nosso grupo é gordo. Tem o Gibão, meio bojudo, mas ele é mais forte que gordo. Porém somos todos feios, nem mesmo quando jovens éramos bonitos. Eu me auto-denomino um feio excessivamente vaidoso. Gosto de cuidar do corpo, de ficar em forma por razões puramente sexuais.

O Fernando é um magro que, recentemente, ganhou uma barriga. Seu conjunto ficou ainda mais desarmonioso. Parece um lagarto saindo de uma pêra. Mas ele é o cara e tem algo que não temos como negar. Do nosso grupo de seis amigos ele é, certamente, o maior fodedor. Se somarmos todas as mulheres que os cinco já comeram não chega à extraordinária e incalculável cifra de Fernando. Certa vez tentamos fazer uns cálculos. O número exorbitou. Largamos mão. Na média o cara trepa uma vez por semana e, cada vez, com uma filha da puta diferente. Mente para todas. Troca o nome, diz que tem cinco anos a menos e nunca releva que é casado. Fernando tem uma mania, talvez adquirida para que nós, os amigos, não duvidássemos dele: tira foto de todas elas e nos mostra em seu notebook que leva sempre à tira colo. São garotas lindas, indubitavelmente tesudas. O cara não sai com mulheres feias. Tem mais, a maioria delas é muito bem formada. Advogadas, médicas, dentistas, psicólogas, professoras e por aí vai. Recentemente ele anda fodendo com uma empresária muito bem sucedida que tem três restaurantes finos em Sampa.

Ele me conta sistematicamente, e pormenorizadamente, suas histórias. No começo era interessante. Mas ando de saco cheio. Sua criatividade é uma lastima. Diz a mesma merda para todas. Recita a todas que as ama e pede todas em namoro. O que me intriga é que o sujeito é feio, nunca tratou os dentes, tem aversão a qualquer coisa relacionada à cultura, não pratica esporte, fuma pra caralho e a única bebida que conhece é cerveja. Não perca tempo em falar de cinema ou literatura com Fernando. Ele não suporta. Fale de buceta. Pronto. É sua especialidade. Sim, porque ele trata as mulheres como bucetas. “Meu, peguei uma buceta semana passada que você não vai acreditar”, é sua frase repetida ad nauseum. Seu outro assunto é trabalho. Ganha bem vendendo artigos para médicos. Mas sobre isso eu não permito que ele diga uma vírgula pra mim. Então, quando saímos para beber, ele me mostra seu celular lado B (ele tem dois, um que usa quando está com a esposa e outro que usa quando está sem ela) e começa a clicar nos recados apaixonados de suas namoradas. “Fê, você é demais”, “Fê, te amo, meu amor, vem aqui vai, preciso de você”. “Meu amor, vamos jantar hoje?”. Cada recado de uma tola diferente. Há, lógico, diversos. E ele se diverte e se enche de orgulho me mostrando um a um. Depois vem a sessão de fotos. E aí até que é legal. As fotos sempre são nos motéis. E lá estão elas, suas namoradas, em poses que vão das recatadas às mais depravadas. É o grande hobby de Fernando.

Ontem ele me ligou. Estava chateado. Saiu para conhecer uma nova vítima, quer dizer, garota, e só ficaram bebendo. Mas, no fim, ela fez uma chupeta e ele gozou na boca dela. Mas não estava bom. Uma hora da manhã ligou para a outra namorada. A empresária. Queria ir lá para fodê-la. A danada não atendeu. Então, magoado, Fernando ficou numa loja de conveniência no posto de gasolina perto da casa da empresária. Bebendo e amargurado. Mas, não demorou, e uma jovem loira aflita parou ali também. Como num toque de mágica, a moça puxou assunto. Ficaram conversando até às quatro da madruga. Trocaram telefone. E Fernando me contou que ela pareceu bem interessada. “Cara, uma loirinha linda. Só vendo mesmo. Muito linda”, ele me disse.

Não sei que merda esse sujeito tem. Muitas vezes passo dois meses sem trepar. Não me lembro de garota gostosa puxar papo comigo em lugar algum. O mais comum é quando passo despercebido. Também não me recordo da vez que trepei com uma garota diferente por semana. Pode ser vergonhoso, mas admito sem muita convicção que isso nunca ocorreu comigo. Dias desses sai com uma mulher linda e especialmente culta. Não rolou nem beijo. Falamos de livros, música e poetas anônimos. E nada. Nem um mísero beijo. O Fernando fica puto quando as coisas evoluem apenas para um boquete. Por isso não conto nada a ele sobre minhas saídas. Seria o mesmo que um pintinho contar a um lobo que conseguiu apanhar uma pequena minhoca. Hoje cedo me observei atentamente no espelho. Meu corpo está bem legal. Fisicamente estou muito mais em forma que ele. Acho que bem menos feio também. Não diria mais bonito, pois isso seria muito convencimento. Porra, mas ele é o grande fodedor. E eu, o discípulo de Onan. É, de fato, impossível entender as mulheres.    

 

 

 

 

  



Escrito por Cass às 15h03
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   Meu escritor cult

Me convidaram para o lançamento de um livro de um proeminente escritor latino-americano. O lance aconteceu num local que não me lembro o nome. Mas era demasiadamente chic. Coisa de bacana. Fui com um amigo. O Nico. A gente anda de moto juntos. Ele tem uma Harley antiga, de 1947. Câmbio na mão. Conhecida como “rabo-duro” porque não tem lá um sistema de amortecedores. Ou seja, dói o cu andar naquilo por muito tempo. A minha moto é japonesa, macia, anda bem. Fomos de moto. A gente sai toda terça-feira pra ir a um encontro de motociclistas. Tem show de rock e umas pervas. Mas nesta terça, como tinha essa boca livre, convidei-o para irmos lá e só o convenci ao lançar dois argumentos irrecusáveis: bebida boa de graça e mulheres tesudas circulando. Nico nunca leu um livro. Primeiro porque é quase cego, depois porque diz que não teria paciência. “Leio uma página e me dá um puta sono e tédio”, ele diz. Somos amigos de infância e desde sempre saímos para beber e arrumar mulheres. Ultimamente só bebemos. Não discuto nada de literatura com ele por razões óbvias. Mas, como bom amigo, ele umas vezes leu uns contos meus e me disse que gostou.

Chegamos ao local e a Harley do Nico faz um barulho infernal. As lindas e elegantes recepcionistas, desconsertadas pela brulheira, nos indicaram a entrada do evento. E lá estavam todos. Repórteres, colunistas, críticos e pessoas cults. Muito uísque, champagne Chandon e vinhos nobres. Num canto, num pedestal, havia o livro e uma forte luz o iluminava de cima para baixo como se a obra fosse algo enviado por ninguém menos que Deus. 

Nico chegou perto, olhou para os lados, pegou o exemplar iluminado e começou a folheá-lo desinteressadamente. De uma maneira delicada, porém resoluta, uma das recepcionistas foi até ele e, notei pelos gestos, orientou-o que os livros para esse fim estavam à disposição no balcão, bem do outro lado da sala. E apontou para lá. “E onde eu pego uísque”, ele disse. “Eles estão servindo”, ela respondeu com um sorriso opaco. Ficamos no uísque. Em uma parede aglomerava-se um pequeno grupo de pessoas. Não sei quantas. Mas bastante a ponto de chamar a atenção. Olhavam, não, não olhavam, liam, ou aparentemente liam uma ampliação de uma reportagem de uma revista moderna sobre o livro. O título era alguma coisa a ver com Peter Pan. E lá estava a foto do autor, com aquele ar sempre despojado. Quatro páginas sobre a obra. Muito elogiosa, a resenha. “Um autêntico talento da nova geração”, dizia um trecho do artigo. “Você é melhor que esse cuzão”, me disse Nico com o terceiro copo de uísque em mãos. “Que papo é esse, você nem leu o cara, que porra você tá me falando”, eu disse. “Ah, isso aí é história infantil, coisa babaca. Esse cara deve ser um burguezão da porra que serve bebida de graça pra agradar esses tontos que vêm aqui e essa capa de merda aí. Feia para caralho”. Essa foi a análise crítica que Nico fez em uma olhadela míope pela obra do recém consagrado autor. “Vamos dar um role e ver a mulherada”, eu disse.

Nico realmente olhava para a bunda delas. Não dissimulava seu interesse pelos rabos femininos. Olhava fixamente, virava a cabeça e posicionava suas vistas estrábicas ligeiramente para baixo para focar exatamente a bunda delas. Calor, vestidos curtos, soltos, leves. E bundas, muitas bundas. A melhor coisa dos eventos culturais, seja de qualquer vertente artística, além dos comes e bebes, é a vertiginosa libido das mulheres. Elas ficam excitadas com coisas culturais.

Eu tinha uma namorada que adorava foder depois de uma estréia teatral. Por isso eu vivia atrás de pré-estréias. Se houvesse um coquetel, tanto melhor. Ela ficava febrilmente excitada. E mulher só fode bem quando realmente está neste estado de torpor uterino. Quando trepa para cumprir tabela é uma merda. Dinão se atracou em uma conversa sem fim sobre seu assunto predileto, motos, com uma mulher de uns quarenta e tantos anos. Um mulherão mesmo. Peitos estufados pela tecnologia plástica, cintura e barriga esculpidas, quadril poderoso e uma bunda tentadora. Não usava aliança. Me afastei para deixá-los mais à vontade. E dei de cara com Gustavo, um jornalista mala que trabalhou comigo há centenas de anos na redação da Folha da Manhã. O cara estava lá ainda. Mas agora era sub-editor do segundo caderno. Grande merda. Continuava o mesmo boçal, só que com gel no cabelo e óculos com armação de osso de algum animal. Estava ali para entrevistar o tal escritor. Disse que o cara era avesso a entrevistas e tudo mais. “Ele é bom, um dândi, com certeza vai ser cultuado por mais umas dez gerações depois da nossa”, ele me dizia freneticamente. Quando cobríamos as merdas que aconteciam na cidade, mortes e tudo mais, ele tinha um jeito mais normal. Agora, não. Ficou afeminado, cheio de trejeitos. Não tenho nada contra homossexuais, mas não suporto homens que agem como putas escrotas. Se é para ser viado, que seja um viado simplesmente agindo como um ser humano. Sempre detestei gente espalhafatosa. Me desvencilhei dele com a desculpa de que a assessora de imprensa me chamava. Respondi a um aceno fictício dela e dei o fora.

Sozinho e sem interesse naquelas conversas, a única alternativa que me restou foi aproveitar a fartura gratuita de boas bebidas. Ataquei de uísque e canapés. Nico se deu bem. Largou a moto no estacionamento e foi foder no apartamento daquela mulher esculpida. Depois me contou, aliás relatar a trepada para um amigo é quase tão bom quanto o gozo, que foi uma das melhores metidas de sua vida. Eu não me dei tão mal. Na hora da debandada a assessora de imprensa ficou ao meu lado. Conversamos animadamente. Eu já estava bem alto e nesse estado a gente sempre fala animadamente seja qual for o assunto. Era uma garota linda e gentil e eu não me lembro de nada de que falamos. Me deu um exemplar do livro de presente e me passou o cartão dela para mantermos contato. Escrevi, ela respondeu, e trocamos idéias sobre um monte de assunto. Ela tem 28 anos, é noiva, e acenou que está de saco cheio do cara. Eu não a amo, nunca vou amá-la. Mas a danada é gostosa. Melhor que fique com o noivo e que trepe comigo vez por outra. Li algumas páginas do livro do sujeito badalado. Achei uma merda e dei de presente para Rita, uma jovem estagiária que trabalha comigo na editora. Ela está adorando, me diz que devora vinte páginas por dia. Ficou bem agradecida. Essa está quase no papo. É bem provável que teremos uma bela foda antes do ano acabar. Devo muito a esse escritor. Para mim ele já é cult. Até o Nico, sempre avesso à literatura, me disse que nunca mais vai esquecê-lo.    



Escrito por Cass às 15h12
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