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Don Juan às avessas
Há mais de duas décadas cultivo duas manias similares e inúteis. Uma é ler e outra, escrever. Tirando livros de auto-ajuda e espírita, leio de tudo. Não, espera. Mentira. Não leio de tudo. Seria impossível. Há pelo menos três mil anos que temos coisas escritas no mundo. Nem tudo é bom, mas sem dúvida que há milhares de obras excelentes. Alguém já imaginou isso? Três mil anos de letras. São trolhões de histórias publicadas. Com certeza deve haver milhares bem semelhantes. Mesmo se um sujeito fosse muito bom em leitura dinâmica penso que seria impossível ler, sequer, todas as obras dos autores mais célebres dos Séculos dezenove e vinte. Ainda assim há tolos como eu que se arvoram a escrever. Tentam, inutilmente, criar alguma coisa inédita.
Situação semelhante acontece com a música. E, neste ponto, embora tenha sido por pura falta de talento, abandonei a carreira de tocador de guitarra ainda na adolescência. Meu rock era excessivamente primário, quase débil. Se bem que só me meti a fazer isso para tentar comer algumas gurias. E nem funcionou a contento. Decidi cair fora. Havia muita gente fazendo música de qualidade. Um monte de bandas com ótimos tocadores. A diferença é que a barulheira encobre as cagadas. E a beleza dos tocares, quando há, dá uma boa força diante da falta talento. Nesse meio ser bonito já é um passo e tanto rumo ao sucesso. Já na escrita, ninguém vê sua cara. É mais difícil enganar. O problema é que você está sempre competindo com celebridades. Penso que para ser um escritor minimamente tranqüilo, sem complexo de inferioridade, é recomendável não ler nada de Kafka, nem Dostoiévsk, nem Camus, nem Machado, nem Paulo Mendes Campos. Fique com os triviais, que prefiro não citar os nomes.
Não vendo e nem dou meus livros. Guardo todos que compro. Tenho um quarto com mais de mil obras. A maioria comprada em sebos. Já li mais da metade, mas ainda há centenas para serem lidas. Tenho certeza que não conseguirei, mesmo lendo, simultaneamente, de quatro cinco livros de uma vez. Faço isso não pela pressa, mas porque fico enjoado se me ater a uma única história. E tenho algum distúrbio que me impede de ficar fixado por muitos dias em um único assunto. Então vou variando. A cada momento de ócio, uma leitura diferente. E os momentos se distribuem pelas madrugadas insones, logo cedo e à noite. Durante o dia tento achar algo novo em blogs. Afinal é aqui que estou. Sou um escritor sem obra publicada. Quer dizer, tem lá um livro. Mas foi um lance muito caseiro. Então, não tenho nada. Apenas blogs que uso para publicar meus continhos. Não sei como daria para colocar um romance num blog. Acho que não daria. E mesmo se desse, seria tolice. Ninguém vai ler uma história longa na tela de um computador. Eu mesmo detesto livros com mais de trezentas páginas. Dostoiévisk tinha essa mania. Escrevia demasiadamente. Poucos de seus livros têm menos que duzentas páginas. Bem, naquele tempo não havia nem televisão. Quem dirá, internet.
Escrevi tudo isso para contar um fato trivial. Por esses dias conheci uma garota que detesta ler. E ela contou isso logo no início de nossa conversa. Daí, em seguida, me perguntou o que eu fazia. Pensei em mentir. Mas tinha que responder rápido e não sou bom em mentiras. “Eu escrevo”, eu disse. Ela riu. Eu ri também. Ela tinha um sorriso sensual. Daqueles que formam duas covinhas nas laterais dos lábios. Lindo. “E você escreve o quê? Cartas?”, ela disse e caiu na gargalhada novamente. Vinte e quatro anos. Cara de dezoito. Meio tontinha, mas muito gostosa. Estava ali como acompanhante da amante do Fernandinho. E eu, amigo é para essas coisas, fui com ele para ficar dois pares na mesa do bar. Nessa hora o Fernando e sua amante já haviam se levantado com uma desculpa tola e se amassavam nos fundos. A coisa estava pegando fogo com eles. Era um bar escuro, tipo boate decadente, com um horrendo cheiro de naftalina. Fica bem perto da represa na velha estrada que ligava São Paulo a Santos. Lugar antigo. No meu tempo a gente chamava aquilo de “cemitério de cabaço”. Nada mais óbvio. Não mudou nada. Escuro, asqueroso e deprimente. Eles colocam uma porra de uma meia vela acesa dentro de um vidro encardido e ensebado. Eu apaguei. Velas, como flores, me lembram defuntos. E a trilha sonora são aquelas canções de sala de espera de dentistas ou puteiros de periferia. “Isso, escrevo cartas”, eu disse. Nessas horas queria mesmo saber ser mais envolvente, mais charmoso e menos estúpido. Com certeza eu me daria bem. “E isso dá dinheiro?”, ela perguntou fazendo uma careta de deboche e tossindo outra sessão de risos, desta vez mais estridentes e brochantes.
“To afins de te dar uns beijos”, eu disse na falta de qualquer outra coisa interessante a dizer uma vez que nosso assunto já estava mais do que perdido. “ah, é, e você diz isso para todas?”. Me dei conta que não me lembrava mais o nome dela e fiquei sem jeito de perguntar. Por isso nem vou aqui mencionar. “É, eu digo para todas quando sinto vontade de beijar e transar”. Tenho esse problema. Na falta de assunto uma aterradora franqueza toma conta de mim. “Nossa, então eu sou apenas mais uma, é?”. Beco sem saída. Era, com certeza, uma idiota completa. E aquilo não evoluiria jamais para uma foda razoável. Estava tudo perdido. Mas ainda tentei consertar. “Não, esta noite você é exclusiva. A melhor de todas”. Ela riu, mas desta vez não achou muita graça pois foi um riso curto, meio irônico. Algo como um suspiro inconformado. “Tá tarde, preciso ir embora”, disse bem seca e calou-se olhando fixamente para a negra noite lá fora. Pensei em tentar mudar o quadro. Pedir perdão. Ser mais dócil. Mas achei melhor deixar assim. “Espera, vou chamar o Fernando, também preciso ir embora”, eu disse e fui até lá atrapalhar o tesão alheio. Ele ficou puto. Me xingou no carro. “Se você quer trepar mais tem que aprender a mentir e ser paciente”, me disse. Nisso ele tem muita razão.
Escrito por Cass às 16h26
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