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Uns dias com vista para o mar
Não é difícil se sentir um idiota. Na verdade, via de regra, somos idiotas, pois acreditamos em uma porção de tolices diariamente bombardeadas em nossas mentes, vestimos tudo isso, nos esbaldamos em bosta na sede de conhecer um pouco mais do mundo. Ou, pior, apenas tentando ser normal. Mas nos tornamos ainda mais estúpidos quando nos travestimos de diferentes. É preciso um grande esforço para se destacar nesta manada humana tediosamente igual. Então o sujeito se fode todo pra ser diferente. Minha mãe dizia "quer aparecer, pendura uma melancia no pescoço". Eu não entendia muito bem esse troço, mas hoje, observando com mais atenção as pessoas, agora sim, hoje em dia compreendo direitinho essa suburbana sabedoria popular. Não suporto gente que se esforça para ser diferente. É, de fato, um beco sem saída. Ou somos tolos ou estúpidos.
Por mais de uma dezena de dias não fiz nada além de cozinhar e beber. Sim, li Henry Miller na sagrada hora de cagar. Terminei um pequeno conto dele nas incursões ao vaso sanitário. Um livro de 120 páginas sobre suas aventuras em Paris. Livro bom é livro curto. Penso em quantas cagadas seriam preciso para ler um Joyce, por exemplo. Crime e Castigo me consumiu um ano e meio de banheiro. Muitas vezes mijo sentado só para poder ler uma ou duas páginas. Mas é isso, quase duas dezenas de dias vendo o mar ao longe, cachaça mineira, cerveja e uma porção de panelas dos mais variados tamanhos para curtir meu passa-tempo predileto: cozinhar.
Casa velha e ampla no alto do morro em um sitio afastado na Ilhabela. Bem longe dos agitos e das praias. O terreno acaba nas redondas pedras que se precipitam ao mar aberto. Ali jaz o velho Velasquez, um navio espanhol que se estrepou e foi a pique ao bater nas terríveis pedras da ilha. Os pedaços dele, pesados, sombrios e enferrujados, ficam ali, à mostra, como para dizer, "aqui é foda gente, não é lugar pra curtir não, aqui morreu muita gente". As ondas são pesadas, bêbadas, cantantes, insolentes. Ninguém se atreve sequer a botar o pé naquela água nervosa. E não tem areia alguma, isso é algo bom, apenas o cheiro da maresia.
Inventei diversas receitas exóticas e como havia uma certa fartura, em algumas delas, salpiquei maconha no lugar do orégano. Os pescadores dali há tempos trocaram a rede pelo tráfico. São traficantes interessantes, quase todos, bem, não sei se todos, pois só tive contato com um pequeno grupo, são religiosos. E eles apenas disseram que ali todos frequentam a igreja do reino de deus ou coisa que o valha. Não sei ao certo. Tem um templo todo azulado com letras doradas no meio da mata. E eles te entregam a erva ali mesmo, ao lado da igrejinha. É muito barato. Cinco paus por uma porção bem servida. Por dez contos te entregam três pacotes. Pechinchei um bocado e, por fim, paguei 20 por uma quantidade extraordinária de maconha prensada e curtida no mel.
A culinária ficou espetacular. A degustação dos convivas, obviamente que estimulada pela erva, beirava o endeusamento. No fim do dia criei um hábito: ver o pôr do sol. Acendia um bom baseado, enchia meu copo de cachaça e me sentava na grande varanda para ver aquela enorme bola incandescente descer lentamente ao mar e depois que sumia sua luz fosforecente, avermelhada, ainda penetrava no céu do lado oposto dando às nuvens formas deslumbrantes e conferindo às montanhas uma silhueta púrpura estarrecedora. Aquilo tudo dava um tesão danado, mas como não havia mulher, o melhor a fazer é simplesmente pensar na poesia do momento. Foi o que fiz. Uma espécie de reza aos deuses que, diariamente, nos proporcionam tal espetáculo. Mesmo em dias nublados, ali, atrás das densas e cinzas nuvens, está o poderoso sol fazendo exatamente a mesma coisa descrevendo seu semi círculo sobre nossas cabeças apavoradas.
Eu não sei porque caralho estou dizendo tudo isso, quando apenas conclui numa dessas tardes que somos irreversivelmente idiotas. Trabalhando ou vagabundeando, somos tolos. Não há jeito de ser diferente. Se ficamos sóbrios, regrados, somos trapaceados e nos fodemos. Se bebemos todas, ficamos loucos, e a gente se ferra do mesmo jeito. E se ficamos ali, bestamente, estáticos, do tipo zen, apenas vendo a porra do pôr do sol, ainda assim um bando de insetos insignificantes nos vampirizam dolorosamente. Chupam nosso sangue. E outros, ainda mais terríveis, zunem em nossos ouvidos. A floresta nos rejeita. A cidade nos rejeita. O mar, bronqueado, puto da vida, nos rejeita e afunda nossos velhos navios matando nossos ancestrais.
Um pensamento tolo me passa pela mente. Suicidio. Seria simples me atirar dali de cima da rocha que eu alcançaria sem dificuldade. Havia até uma escadinha até ela construída para melhor apreciar o céu crespúscular. O argentino dono da casa que fez. Coisa caprichada. É subir ali, respirar fundo e se atirar para baixo. Pronto. Morte instantânea. Acho que dá uns trinta metros de altura. E, lá embaixo, é mar dando porrada nas pedras. Morto, lavado e tragado para o mar. Num instante e somos rango de camarões, esses abjetos seres marinhos. Mas é só um pensamento. Imediatamente depois me vem em mente a formosa bunda da caiçara que contratei para limpar a casa. Ela é desdentada, acho que teve varíola, pois a cara tem marcas severas, mas deixando cara de lado, do busto pra baixo é um espetáculo.
Surge a lua e a estrela. Brilham suavemente. Os pernilongos picam famintos devorando nossas partículas que sangram, coçam. Mas fica a imagem da doméstica tesuda, libidinosa. Talvez se eu a abordasse amanhã. É, é isso mesmo. Não vale a pena morrer sem antes dar uma boa trepada com ela. E se tenho alguma razão em minha teoria, dentro dessa perspectiva de que somos todos tolos, não vai ser difícil convencê-la a uma trepada comigo. Ou talvez ela não seja suficientemente idiota. Neste caso, posso oferecer uma permuta. Quem sabe uns cinquenta mangos.
Escrito por Cass às 21h49
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