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Uma volta pelo cemitério já é algo legal para começar o ano novo
O cemitério estava quase vazio naquela primeira tarde de 2007. O grande portão de ferro enferrujado permanecia trancado com uma corrente ocre e um cadeado decrépto de aparência frágil e fantasmagórica. Cassiano abaixou-se e entrou pelo buraco na cerca logo ao lado do portão. Cuidou para não pisar nas tigelas e garrafas quebradas que na noite anterior, de fim de ano, foram oferecidos aos orixás. Fez o sinal da cruz, pediu licença às almas ali depositadas, e seguiu caminhando pela alameda central rumo à pequena capela das treze almas. Ali estão treze pessoas não-identificadas que morreram no grande incêndio do Joelma em fevereiro de 1974. Se transformaram, no culto popular, numa espécie de santos anônimos ignorados pela igreja e ficaram assim conhecidos: treze almas. Sem nomes, sem parentes, mas cultuados por uma multidão de devotos, especialmente os moradores pobres da periferia da zona leste paulistana. Uma grade de ferro os isola dos mortos comuns. E ali é um espaço perene, apenas deles, doado pela prefeitura, cuidado com esmero pelo senhor Luiz, um devoto já bem cansado e razoavelmente idoso. Alguém construiu no local, logo no início, uma pequena capela de madeira com a imagem de nossa senhora imperando num altar pequeno e modesto. Outro alguém colocou ali uma grande bíblia. E isso conferiu ao lugar tons sagrados. Uma infinita quantidade de placas de mármores, agradecendo por graças alcançadas, cobre o chão de terra onde se alinham as treze covas e, numa extremidade, a estátua de quase três metros do cristo na clássica posição com os braços abertos. Na outra ponta, um canto para acender velas e fazer orações. Centenas de pessoas visitam o local diariamente, muitas aproveitam o enterro de parentes e conhecidos pra dar uma passada por lá. Mas naquela primeira tarde de 2007 apenas Cassiano rumava resoluto para as treze almas.
Era um cemitério grande, do tipo tradicional, onde as covas têm cara de cova mesmo. Cemitério de gente simples. Havia chovido e a lama atravessava a rua que circundava todo aquele espaço. Chovera torrencialmente na passagem de ano e como ali era uma colina a enxurrada desterrara algumas sepulturas exibindo pedaços de caixão, coroas estrupiadas, flores esmagadas e muitos tecidos com predominância de lilás e amarelo. A força das águas carrega a terra fofa para o asfalto, muitas vezes leva consigo flores, placas e pedaços de caixões já carcomidos pelo tempo. Não raro também deslizam abaixo ossos ou até mesmo esqueletos inteiros ainda vestidos com seus farrapos mortuários. Fica tudo depositado na parte baixa e os cães miseráveis fuçam ali, chafurdam como porcos, buscando sagazmente alguma coisa que seja comestível. É cena comum na temporada de chuvas. Os coveiros trabalham sem parar e arrumam tudo, botam os féretros de volta aos buracos como se, feito almas penadas, tivessem todos saído para dançar sob as águas. Muitas vezes erram os buracos, trocam os caixões. Invertem tudo. Mas não se importam, já que os parentes nunca ficam sabendo. Cassiano sabia, pois andava sempre por ali, caminhava diariamente no cemitério. Não por ter qualquer inclinação macabra, mas simplesmente porque era ali que encontrava paz para fazer suas reflexões peripatéticas e, também, curtir alamedas. Adorava andar por alamedas e, na periferia, só havia essa, a do cemitério. Grandes árvores a cada cinco metros da rua asfaltada. Havia ali o frescor pacífico das sombras, o canto dos pássaros e o perfume, embora muitas vezes conspurcado por carniças, das folhas untadas de orvalho.
Cassiano manteve sua marcha. Do portão até a capelinha das treze almas dava quase um quilômetro entrecortado por uma leve descida, uma pequena reta e uma acentuada subida. Na pequena reta, situada na depressão do terreno, era onde se depositava o lixo e a lama trazidos pelas águas. E onde estavam os cães, urubus e alguns ratos também. Seres que, concentrados em seus afazeres, de maneira soberba, ignoravam Cassiano e, por ele, também eram ignorados. A subida logo em seguida exigia um certo esforço físico e a respiração, além de ofegante, penava devido aos odores nada agradáveis uma vez que o vento norte empurrava o mau cheiro da reta para aquela área. O esforço exigia mais ar no pulmão e o preço era aspirar o fedor intensamente. Puxar tudo para dentro com força e resignação. O jeito foi abaixar a cabeça, puxar a gola da camiseta de modo a cobrir a boca e o nariz, e seguir a rápidas passadas ladeira acima. “A vida fervilha e abunda entre os mortos”, pensava Cassiano. Do seu lado esquerdo o grande muro cinza, poluído com velhas placas, sujo e quase que totalmente tingido por manchas feitas pelas chamas das velas, guardava os ossos dos mortos há muito tempo. Do lado direito as covas decoradas com grama e azaléias. Gente recém sepultada. Mais alguns passos e Cassiano é surpreendido pelo frescor suave das goiabeiras. O vento muda de direção, agora vem de outro ponto cardeal, talvez noroeste. Traz consigo o perfume de terra úmida salpicado com folhas verdes. Alívio. Cassiano pára para tomar fôlego. Respira com mais vontade, sente-se bem. De cima, repousando um pouco, olha o horizonte inclinado, vê até onde a vista alcança, centenas de campas coloridas e, curiosamente, todas parecem muito alegres. O cemitério, daquele ponto, ganha tons quase festivos. Parece mesmo um idílico bosque de contos de fadas.
A igrejinha está a poucos metros. Azul, simples, com telhado de duas águas. Mas não há ninguém. A grade fechada impede a entrada no recanto das treze almas santas. O céu está em tom alaranjado, o sol tenta jogar seus raios pra fora mas é solenemente impedido pelas grandes e negras nuvens encorpadas como esponjas repletas de água. O vento faz as folhas vibrarem, precipita-se uma repentina chuva falsa vinda das árvores. Cassiano fica ali, parado, contemplando tudo aquilo. Agradece as treze almas, reza ao seu modo. Não é católico, não gosta de ser nada em religião. Apenas conversa com as treze almas e gosta da imagem de nossa senhora negra. Também lhe agrada uma capelinha simples no meio do cemitério. Silenciosa e solitária. Pobre, de madeira e pintada com tinta barata. Nada sente diante da capela sistina, mas ali, defronte daquela obra tão singela, parece ser possuído por sopros divinos. Porém sabe que são sensações que ele mesmo quer ter. Não se ilude com metafísicas. Faz o sinal da cruz e segue na parte alta do cemitério. Sente-se aliviado. Tira do bolso um baseado, acende e fuma tranqüilamente, em passadas lentas, saboreando o momento. As nuvens se ajuntam numa união conspiradora. Luzes no céu, flashes instantâneos. Depois um rufar de tambores celestiais e assustador. O som ecoa por aquele imenso vazio sepulcral. Sobre Cassiano paira a aromática fumaça mágica. Alguma coisa bem que poderia acontecer nesse cenário todo. Mas não ocorreu nada demais. Como de costume, Cassiano rumou para sua casa e nem sequer tomou chuva. Assim que chegou ligou para Dolores. Ela propôs um cinema, ele sugeriu uma trepada. Assistiram “Amores Brutos” na casa dela. E gozaram juntos depois, como há muito tempo não acontecia.
Escrito por Cass às 13h45
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