Cassanices
   Somos todos iguais no amor e na hipocrisia

 

Por fim esqueci o velho amor. Levei mais tempo que qualquer outro mortal, mas obtive êxito. Restam ainda alguns trapos sujos atados sobre a ferida. Se removê-los, sangra, fede. É melhor não mexer. Esses dias eu a vi. Me pareceu opaca e sem viço. Andava de mãos dadas com um sujeito meio bobalhão. Aquela visão, que outrora eu tanto temia, me deu uma agradável sensação de vitória. Sei que isso é patético, mas é a vida. Creio que se a visse linda, brilhante e com um cara bem apessoado eu iria me sentir o grande otário. Um derrotado. A gente é hipócrita pra cacete.

O importante é que me sinto revigorado. Por isso Vince me convidou para ir com ele para Índia e passar as festas por lá. Ponderei, fiz as contas e desisti. Seria interessante, mas ainda prefiro gastar grana para conhecer o Brasil. Depois de voltar de Porto Alegre, em breve vou percorrer os rincões de Santa Catarina, conversar com antigos pescadores em Itajaí, e aí sigo para Mato Grosso. Há uma cidade cujo nome me intriga: Sonora. Parece nome fictício. Mas está ali no mapa. Vou para a idílica Sonora. Me parece mais interessante que Nova Delhi.

Talvez em Sonora eu conheça o amor de minha vida. E vai ser uma garota linda. Mas, como sempre, estarei diante de um amor épico e impossível. Essa é minha sina. É provável que seja jovem demais. Eis ai o primeiro percalço. Qual a distância de São Paulo a Sonora? Não faço a menor idéia. Mas bota mais de mil quilômetros aí na conta. Pronto, outra grande dificuldade. Tem mais. A jovem garota estará grávida. Isso. Grávida. Esperando um lindo bebê e o pai, um cara bem sucedido, e ciumento pra caralho, de alguma maneira vai saber que eu existo e terá em mente duas coisas: me matar ou convencer meu amor que sou um grande calhorda. Talvez execute essas duas tarefas com extrema competência.

Essas são as probabilidades. Por isso não vou à Índia antes de ter um grande amor de verdade. É muito risco. Ando carente, e todo carente age como um perfeito safado. A gente fica sem transar por muito tempo e começa a ter atitudes deploráveis como tentar trepar com uma garota sem a devida paciência para as preliminares que, via de regra, invariavelmente no meu caso, levam-se dias, semanas ou meses. Para obter algum êxito no sexo preciso me manter em forma, tenho que apresentar atrativos físicos. Esse é o lado bom. Talvez se eu estivesse satisfeito sexualmente eu poderia estar flácido e gordo. Como não estou, preciso cuidar assiduamente do corpo para, com ele, seduzir as mulheres. Para um contumaz bebedor de vinho isso não é exatamente uma tarefa das mais simples. Via de regra acordo de ressaca, mas preciso caminhar, suar, queimar calorias. Tudo isso para, de alguma maneira, instigar as mulheres.

Dizem que postura e bom papo conta pontos na arte da conquista. É pura balela. Nunca vi homem com boa postura tampouco com bom papo. São todos uns fingidos. Fingem para conseguir foder. Depois voltam à normal boçalidade. E muitas mulheres só descobrem isso um ano depois da lua de mel. Eu prefiro ser mais honesto, não tenho boa conversa. Não sou especialista em nada, não coleciono nada, não entendo de muita coisa a fundo e tenho pouca paciência para discutir assuntos que não me interessam. Gosto um pouco de história. Mas nunca encontrei uma garota que tivesse prazer em discutir história. E mesmo se encontrasse, creio que não há nada a se discutir. Então sou um cara sem muitos assuntos.

Tenho uma mórbida inclinação a me envolver em intensos amores impossíveis. Não sei exatamente como isso ocorre comigo. Pode apenas ser uma forma de auto-defesa. Ou, simplesmente, auto-flagelo.

No fundo queria mesmo amar. Ainda que fosse algo nas raias do improvável, não me importa. Seria bom amar e ser amado. Bem simples. Sei que pode parecer piegas, mas seria fantástico ir para a Índia com meu amor. Andaríamos de mãos dadas e eu ali com a mais genuína cara de pamonha bonachão, bem bobalhão mesmo. Talvez ela até parecesse, a olhos alheios, sem brilho, sem viço ou até mais feia. Mas que se foda. A magia dos amantes é muito privativa, nunca se mostra aos outros. Ainda que tudo isso fosse para o esgoto depois da lua de mel. E mesmo se nem houvesse uma junção. Não me importaria. O amor vale sempre a pena. Mesmo quando nos torna, por um tempo, idiotas explícitos. Sim, porque sem amar, somos espertamente idiotas dissimulados. 



Escrito por Cass às 15h39
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