Cassanices
   Temos todos nosso momento gay

-         Alô...

-         Cass?

-         Opa, belê?

-         Eu sou gay!

-         O que?

-         É o que você ouviu. Eu sou gay!

-         Que porra? Você me liga de madrugada pra me falar merda? Tá bêbado?

-         Bebi um pouco, refleti, tô triste, me sinto só. Sou gay.

-         Caralho, eu também bebi, fico puto e muitas vezes me sinto só. Isso não me transforma num veado. Meu, vai dormir, depois a gente conversa...

-         Não tô nada bem...

-         Queque há?

-         Tenho vontade de chupar um pau, penso nisso e me dá um puta tesão!

-         O que?

-         Isso mesmo que você ouviu!

-         Não ouvi...

-         SINTO VONTADE DE CHUPAR UM PAU, PORRA! OUVIU AGORA?

      -    Não precisa gritar...ouvi! E daí?

Escrito por Cass às 13h51
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   continua...

-         Oras, isso me transforma num gay, não?

-         Acho que sim!

-         Você já sentiu vontade de chupar um pau?

-         O meu, talvez...quando garoto! É normal...

-         Você me deixaria chupar seu pau?

-         Cara, de boa, tu tá chapadão. Vai dormir...

-         To falando sério...me deixaria?

-         Claro que não!

-         Tá vendo...a gente nem pode contar com os amigos!

-         Tá, a gente se fala amanhã! Boa noite...

-         Não desliga...por favor! To mal, é sério!

-         E a Patrícia?

-         Faz tempo que a gente não se fala...

-         Liga pra ela...

-         Mas ela não tem o que quero...

-         Porra, vai se foder e não me enche o saco. Você tá bêbado!

-         Cass...

-         Fala...

      -     Me deixa chupar seu pau...



Escrito por Cass às 13h51
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   continua...

Desligo! Perco o sono. Porra, meu amigo me liga às duas da madruga pra me falar que é veado e ainda pede pra chupar meu pau. Esse mundo está todo fodido. Acho que sou moralista. Ou sou um filho da puta? De repente eu poderia deixar ele chupar meu pau o que, conceitualmente, também me tornaria um veado. Mas nunca senti atração por homens! Então pra que me preocupar. E nunca nem fui preconceituoso. Não, não daria para ele chupar meu pau até porque eu não iria ter qualquer ereção. A gente precisa sentir atração e tesão para o pau reagir. No meu caso tem que ter uma fêmea ali, lisa, fria, suave, cheirosa. Nada de grandes e negros pêlos cobrindo o corpo. Argh. Pêlos? Não, impossível. Pelugem sim, aqueles pelinhos suaves, translúcidos. Ah, sim. Mulher. A perfeita e soberba criação divina. Mas, que merda, eu bem que poderia tentar ajudar meu amigo. Seria apenas um tipo de favor. Reflito um pouco mais. Meu lado sensível cochichou para eu ligar de volta e tentar um acordo. Talvez se ele apenas lambesse um pouco. Quem sabe uma fugaz punhetinha só pra ele ficar mais tranqüilo. Ah, merda. Os efeitos do vinho ainda pairavam e piravam meu espírito torpe. Por que diabos ele sentiu esse exótico desejo? A Patrícia é um mulherão. Uma tesuda morena de quarenta e poucos anos, com ancas lindas, tetas perfeitas e uma boca maravilhosa. Ele vivia me relatando as loucuras que faziam juntos. E agora o cara me liga e me vem com essa história de merda. Só pode ser bebedeira. E lá se foi meu sono. Nossa, o cara descobriu que sente tesão ao se imaginar chupando um pau. Que absurdo. A idéia percorre minha mente. Tragicamente aparece no filme projetado em mim mesmo minha imagem com um caralho na boca. Puta que o pariu. Levo a mão ao meu pau. Está duro. Estou com tesão. Desespero. Pego o fone. 

-         Alô...

-         Marcão?

-         É, sou eu...Cass?

-         SEU FILHO DA PUTA!

 



Escrito por Cass às 13h49
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   O mundo pertence aos tolos

Dizem que o mundo é dos espertos, mas me parece que só os tolos sobrevivem. Ou talvez esses espertos sejam apenas idiotas mais vivos. Pode ser isso. Basta você fazer alguma coisa e vem um idiota para te criticar. Faça você um movimento diferente e pronto, alguém já está ali para encher o seu saco. Isso acontece na política, nas artes, no trabalho ou nos bares. Essa gente está sempre em constante alerta para foder sua vida. No trânsito, nas festas, no emprego, entre vagabundos, no aconchego da família ou no seu grupo de bons amigos. São bilhões de tolos que dominam esse planeta na porrada ou na falácia.

Eu não sei fazer muita coisa, sou desprovido de nobres habilidades. Diante de uma tela em branco, por exemplo, eu não faria nada além de aberrações geométricas. Com boas madeiras, pregos, serrote e martelo o melhor que eu faria com isso tudo seria ajeitá-los cuidadosamente em uma caixa. Quando solta um fio de minha moto não sei que merda fazer para a coisa voltar ao normal. Muitas vezes entro em pânico só de me imaginar entre parafusos, porcas e chaves de fenda. Nesse troço de consertos tenho sucesso apenas na troca de lâmpadas comuns. Fosforescentes, nunca. Para compensar venho obtendo algum êxito na cozinha. Já fiz bons assados, molhos incríveis para massas e tenho uma boa noção na arte de misturar elementos para compor um prato exótico. O problema é que nunca consigo repetir um bom experimento culinário. O que faço, se sair bom, é único e não há nenhuma chance que eu reproduza tal prato em seguida. Esqueço os ingredientes, as doses e pronto. Não sai igual. Mas normalmente acerto a mão na cozinha.

Com esses defeitos eu jamais poderia me arvorar a ser um cozinheiro, nem mesmo um razoável ajudante de cozinha. Menos ainda um grande chef. Bem, não possuo intimidade com números e equações, me aborreço com trabalhos burocráticos, tenho pouca paciência com as pessoas (por causa de meus preconceitos com idiotas) e a única opção que me restou foi fazer jornalismo. Mas para ser um bom repórter eu teria que melhorar, e muito, meu jeito com as pessoas. Empenhei esforço para isso. Estudei um pouco de Freud mas foi com Shakespeare que, enfim, pude adquirir mais tolerância com os idiotas. Depois veio Kafka que me ajudou a ignorá-los e, de certa forma, classificá-los. Com o tempo percebi que os idiotas mais nocivos estavam no topo do poder na sociedade. Então eu deveria, a todo custo, evitá-los. Por isso não me daria bem fazendo jornalismo político. Logo abaixo desses seres abomináveis, vêm os idiotas corporativos que, via de regra, vivem nas grandes metrópoles e possuem carrões de luxo. São psicopatas prontos para assassinar crianças que inocentemente se atrevem a atravessar a rua na frente de suas poderosas máquinas mortíferas. Não, eu não poderia jamais fazer jornalismo econômico. Me dava ânsia ao me imaginar entrevistando gente assim.

Me agradou a idéia de fazer jornalismo esportivo. Falar com atletas, gente do bem, pessoas que buscavam a superação, a união, que valorizavam o time. Essas porras todas. Mas apenas duas semanas foram suficientes para eu me sentir engolido por seres bizarros. Eram dirigentes inescrupulosos, atletas robotizados e repórteres ignorantes em todos os sentidos. Lixo lidando com lixo. Cai fora do jornal. Fiquei sem grana. Não quis mexer com lixo, então fiquei na merda. Perambulava pela cidade sem qualquer idéia do que fazer e, sem grana, no almoço dividia um prato de PF com minha namorada que trabalhava numa seguradora. Era um prato de arroz, feijão, um bife duro e batata frita e dois jogos de talheres. Para aplacar a fome, pedíamos três pãozinhos que o garçom trazia com uma puta má vontade. Assim é o ser humano. Um bicho bem pouco solidário. Depois de me foder por um bom tempo, arrumei emprego numa editora que fazia uma revista para caminhoneiros. Meu primeiro trabalho seria cobrir uma greve desses homens da estrada. Me parecia algo romântico. Fui lá imbuído no maior espírito romântico. Imaginava encontrar caras estradeiros, gente que viajava, pensava que cada um ali fosse uma espécie de Neil Cassady. Cheguei ao local e me deparei com o caos. Os homens se pegavam na porrada. Quem tentava furar o bloqueio tinha o caminhão apedrejado. Havia uns líderes, caras do sindicato, que não apaziguavam em nada e, pior, incitavam os brutamontes à violência. A coisa estava sem controle. Eu perguntava a um e outro o que porra estava acontecendo, o que eles reivindicavam, e as explicações, sempre aos berros inflamados, eram as mais desencontradas e estapafúrdias. O tal líder, suado e belicoso, não quis falar comigo. Mas a todo momento entrava no restaurante do posto de gasolina e conversava com dois figurões, tomava uma dose de cachaça e voltava esbaforido para o front repetindo frases de efeito contra o governo, a polícia e os patrões. Resolvi, então, checar quem eram os dois sujeitos engomados ali no balcão. “Vocês estão no comando disso tudo?”, perguntei. “Não, somos observadores apenas”, respondeu desdenhosamente o gorducho de camisa branca e gravata vermelha, soltando um sorriso de escárnio no final. “Como observadores, vocês poderiam me dizer qual a reivindicação da categoria?”, perguntei. “Pergunte ao Lira”, disse o moreno alto e mal encarado que estava bebendo cerveja com o gordo. O Lira era o cara do sindicato que entrava e saia de lá. E já havia se recusado a responder minhas perguntas. Virei as costas e sai dali. Conversei com os caminhoneiros mais velhos, calmos e sábios. Pareciam bem lúcidos. Contaram que aquilo tudo não passava de armação do partido que comandava o sindicado contra a privatização de uma usina. Nada a ver com estradas ou caminhoneiros. Mas parar a via Dutra causava um bom efeito. Escrevi a reportagem, e contei que o gordo e o moreno truculento, além do próprio sindicalista, haviam me ignorado e pareciam envolvidos com aquela armação toda. Não publicaram e alegaram que a história estava literária demais e com fontes não fidedignas. Fiquei pouco tempo mais na revista e voltei às ruas e a compartilhar um prato de comida com minha namorada. Também desisti de classificar os tolos em categorias. Eles estão por toda parte e, com o tempo, como por osmose, temo que também me tornei um deles.

                                                          



Escrito por Cass às 12h05
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