Curiosidade é foda
Faltavam alguns minutos para meia-noite quando o telefone tocou. Eu estava entretido com toda orgia asséptica de Decamerão. Atendi.
- Cass?
- Sim, quem é?
- Sou eu!
A voz era de mulher. Parecia aflita, mas nada grave. Quando é algo grave a pessoa se identifica imediatamente. Eu não tenho paciência para mistério.
- Porra, eu quem?
- Esqueceu de mim? – ela insiste nesse joguinho idiota.
- Desculpe, estou sonolento e tomei muito vinho. Não há como o cérebro funcionar. - Talvez com essa desculpa ela parasse com aquela bobagem.
- Ah, faça um esforço vai. Não acredito que já não se lembra mais de mim.
Mulheres, mulheres. A diaba me liga quase meia-noite já cobrando serviço. Preciso me esforçar sendo que foi ela quem ligou pra falar comigo.
- Olha, desculpe, sem condições de me esforçar. To com sono e bêbado. Fala logo quem é pra gente dar um rumo à nossa conversa.
- Sou eu, Jéssica! Caramba!
Aí sim me esforcei. Jéssica? Mas de onde caralhos conheço alguma Jéssica? Precisava agir rápido agora.
- E tá tudo bem contigo? – essa é uma pergunta pra colher alguma dica e ganhar um tempo.
- Tudo. E você? Como está na revista? – bem, ela realmente me conhecia e sabia do meu trabalho e eu ainda na estaca zero.
- Tá legal. Curto o que faço! – achei melhor não me alongar muito.
- Estava com saudade...
- Faz tempo que a gente não se fala. Por que demorou tanto a me procurar? – ainda não fazia a menor idéia de quem era a tal Jéssica, mas essas perguntas tolas nos permitem coletar dados e forçar a mente. Comecei a ficar intrigado.
- Casei. Não sabia?
- Claro que não. Como iria saber! E tens filhos?
- To grávida, seis meses e meio! É um menino.
Escrito por Cass às 11h48
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