Cassanices
   Entre a poeta e a musa

Fui convidado para uma festa de gente bacana. Alguns bem ricos, outros nem tanto. Era uma casa imensa enfiada numa pequena viela de luxo. Muitas árvores na rua, calçada lúgubre e escura e portões imensos guardados por homens gigantescos. Seguranças não riem em serviço. É uma norma estranha essa. Não trabalharia em algo que eu não pudesse rir espontaneamente. Havia um sujeito suado ajudando os motoristas a estacionar que me arrumou uma vaga estratégica: perto da saída. Cheguei sozinho e estava disposto a cair fora o mais rápido possível. Era o lançamento de um livro de poemas de uma amiga. Nunca gostei daquele romantismo rimado que ela escreve, mas é uma boa amiga e é gostosa. Essas coisas contam muito. Transamos uma vez, ambos bêbados, e foi um desastre. Agora ela tem um cara boa pinta, meio boçal e ciumento pra caralho que, naturalmente, me odeia.

Logo na recepção uma linda e sorridente recepcionista me bota uma taça de espumante na mão. E faz o mesmo com todos que entram. Por um instante cheguei a pensar que ela fizera isso exclusivamente pra mim. Tolice de gente carente. Bem, segui em frente na sala principal daquele casario secular assobradado. Uma escada clássica dava para o salão onde acontecia o evento. Tudo brilhante. Já havia muita gente por ali e, num canto, um negrão alto adornado com grandes óculos escuros e um paletó azul cuidava do som ambiente. Não sei bem o que porra era aquilo que tocava. Posso afirmar que não era jazz, nem rock, nem blues. Tem um nome bem moderno praquele insano barulho rítmico, mas não sei, e não me importa saber. As pessoas circulavam com suas caras roupas estranhas. Cada um tentando desesperadamente chamar a atenção pra si e fazendo sempre um ar de pouco preocupado com essas coisas tão pequenas. Terminei o frisante, estava bom. Apanhei uma taça de vinho. Nesses lugares, rapidamente, me sinto um completo idiota solitário. Nenhum rosto conhecido. As mulheres pareciam divindades para serem apenas idolatradas. Caminhavam languidamente como se estivessem desfilando na passarela. Perfumes cítricos flutuavam solenes. Fui mijar.

O banheiro cheirava a flores silvestres. Havia folhas secas e coloridas acondicionadas em grandes vasos de palha e, sobre a pia, dois grandes vidros transparentes abrigavam milhares de pétalas de rosas das mais variadas cores. Porra, isso deve dar prisão de ventre. É legal cagar em banheiro limpo, mas cagar em banheiro perfumado deve inibir o cu. Mijei e sai dali. Peguei outra taça de vinho. Estava bom mesmo sendo um malbec argentino. Tentei encontrar Beth, a anfitriã poeta, mas nada dela. Talvez sua entrada seria algo solene, pela escada, com músicas triunfantes. Os livros, entretanto, estavam todos acondicionados numa grande mesa de madeira de lei enfeitada com flores. Três garotas lindas, altas e tesudas cuidavam dessa parte. Do lado oposto da mesa, uma cadeira imperial, toda trabalhada, aguardava Beth. Seria o momento dos autógrafos. Legal. Fiquei por ali. Enchi outra taça e aguardei. No livro, segundo Beth, havia um poema em homenagem à nossa noite de amor que, na verdade, não teve nada de amor. Foi puramente sexo. E dos ruins. Não sei exatamente o que rolou. Gozamos e tudo mais, mas não me agradou. Fiquei deprimido depois. Certas mulheres, mesmo gostosas, o melhor a fazer é mantê-las como amigas. Folheei o livro. Uma encadernação aristocrática com duzentas e vinte páginas em papel fosco. Os poemas pareciam flutuar elegantemente ali no meio. Corri os olhos por alguns, li uns versos, mas em nenhum pude identificar a trepada que demos no passado. Aliás, todos, de alguma maneira, e com intermináveis floreios metafóricos, falavam de sexo. Então poderia ser qualquer um. Mesmo se ela me determinasse um eu não iria acreditar. Enchi novamente a taça. O garçom foi generoso desta vez.

O grande momento, enfim, aconteceu. Beth desceu pelas escadas conforme eu havia imaginado. Ainda bem que não tocaram nada solene. Simplesmente desceu sorridente, envolvida em um vestido negro com coisas cintilantes e se esmerou em cumprimentar a todos ora com sorrisos, ora com beijos, ora com ambos. Tudo dependia da intimidade que ela tinha com cada convidado. Os flashes das máquinas salpicavam-na o tempo todo. O namorado estava a seu lado, engomado, lustroso e com um desdenhoso ar de superioridade. Parecia festa de debutante. Me esquivei daquilo tudo dando a volta pelo outro lado, por trás das pessoas, e fiquei incógnito. Meu amigo garçom me serviu mais uma boa dose de vinho. É bem divertido ouvir as conversas das pessoas que freqüentam pré-estréia de filmes de arte, vernissage e lançamentos de livros. Todos ali posam de intelectuais. Fazem tipo e se tornam engraçados. Perto de mim um grupo falava com uma curiosa intimidade sobre Kafka, Dostoiévsk, Neruda, Baudelaire e por aí vai. Eu não sei porra alguma desses caras além daquilo que li traduzido para o português e, supostamente, escrito por eles. Não me acho credenciado a falar de nenhum escritor famoso. Na verdade, de ninguém. Ali falavam também, sempre com aquela pretensa propriedade, e boa dose de empáfia, de músicos, atores, cantores, cineastas e o caralho. Aquilo tudo me encheu muito o saco. As mulheres eram lindamente inviáveis. Sequer mereciam uma punheta. Tomei minha derradeira taça. Não contei quantas já havia entornado. Mijei pela última vez no banheiro cheiroso e fui embora sem meu livro autografado. Economizei trinta paus com isso. Era o preço da obra. Resolvi visitar minha amiga D. que estava doente e tossindo muito. Comprei uma garrafa de vinho. Desta vez um Cabernet. Ela mora numa pequena casa no topo de um prédio e sempre me recebe com um sorriso sensual. Há marcas de maus-tratos por seu corpo lindo, quase todas cobertas por tatuagens. A mais fantástica é um desenho de uma bonequinha feita por sua pequena filha. D. é maravilhosa. Alguns a consideram fada, parece mesmo. Mas age como uma bruxa lasciva. É o tipo da mulher que seduz apenas com a voz. Não falamos sobre literatura. Apenas sonhamos juntos as mais absurdas coisas, inclusive viagem à Amazônia e um lisérgico mergulho no rio Negro. Me encanto com ela. Ela sim me dá tesão. O problema é que, por ela, também sinto paixão. E isso, definitivamente, não é bom.                                              



Escrito por Cass às 17h35
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