Cassanices
   O louco do Glicério e sua musa encantada

Thomas é um débil mental inofensivo. Incapaz de falar qualquer coisa compreensível, fica ali sentado por intermináveis horas sobre o registro de água do cortiço onde mora simplesmente ardendo ao sol e olhando o movimento de comerciantes trambiqueiros, putas e vagabundos do Glicério. Eu faço uns trabalhos na gráfica que fica bem em frente ao cortiço. A calçada é toda fodida e esburacada e cheira a mijo de gente e animais. Mensalmente passo um ou dois dias por ali. Quando fico enjoado com aquele cheiro impregnante de tinta e papel, vou pra rua. Thomas está ali, com seu boné vermelho, camisão encardido dos Lakers, e uma bermuda surrada que vai até o meio de suas bronzeadas coxas gordas. Fica com a boca aberta o tempo todo, baba muito, e tem a pele estorricada pela crueldade do sol tropical. Parece que não se importa, apenas fica ali, quase sem movimentos, fitando com os olhos atônitos os passantes. Alguns operários o azucrinam. Param lá, provocam-no. “Sifudê”, ele ruge, e cospe neles. Os caras se divertem com isso e fogem aos atropelos dos cuspes que são arremessados com muita força a uma distância incrível. A vida passa assim no Glicério decadente há tanto tempo. As putas cobram dez reais por uma chupada. A maioria é bem feia, com pelotas e manchas estranhas pelo corpo tristemente maltratado. Mas há uma negra maravilhosa. Tudo nela é de pequenas proporções lisergicamente lascivas. Os peitos parecem duas pêras maduras, sedosas e vibram como se soubessem de sua função de provocar os homens dali. Seus dentes, de tão reluzentes, parecem artificiais. Bunda, coxas e barriga de modelo. Talvez a bunda seja um tanto exagerada, pois é bem protuberante o que, é claro, lhe dá uma vantagem com relação às insossas modelos desbundadas. Tânia é o nome dela. Gosto de conversar com ela e com Thomas nas tardes de ócio, fumando um cigarrilho, só pra relaxar. Thomas não fala nada, só balança a cabeça, mas deixa claro que gosta de mim com o brilho de seus olhos negros. Ao menos não tiro um sarro da loucura dele. E, pelo que noto, ele ama Tânia que, com toda ternura das putas, o trata muito bem. Creio que seja a única garota que o trata bem. Sou capaz de apostar que sequer sua mãe, uma ex-viciada sorumbática, dá a ele o carinho que Tânia lhe dá.

Thomas não fuma, apenas ri de nossas conversas surreais. E quando passa um nordestino que ele não gosta, range os dentes e comprime a testa. Parece um animal amedrontado. Mas basta Tânia botar carinhosamente a mão sobre seu ombro para ele abrir novamente um largo sorriso e dar uns pulinhos de felicidade. Seu sorriso o faz estremecer comicamente e sua pança sacode com o corpo. Tudo isso sempre sentado. Nunca vi Thomas de pé. Seus dois irmãos são traficantes e ladrões, passam rapidamente pela gente, mas são educados e nos cumprimentam. Estão sempre apressados. Ignoram completamente Thomas, mas lançam olhares famintos para Tânia que os esnoba solenemente. Diz que os odeia por eles não cuidarem do irmão louco. “Para esses eu não daria nem por um milhão”, ela diz. É apenas força de expressão para externar sua revolta. Ela transa por cinqüenta contos com qualquer um. É a puta mais cara do baixo Glicério. Mas vale cada centavo cobrado.

A última vez que estive por lá encontrei Tânia chorando. Thomas estava muito ferido e internado no hospital público. Na tarde de domingo fora espancado por três machões que o flagraram batendo punheta. Ele fazia isso sempre. Tânia o estimulava e, do outro lado da rua, levantava sua saia e lhe mostrava a buceta. Era a forma deles fazerem amor. Ela gostava disso. Se excitava quando Thomas tirava seu pau imenso pra fora e começava a se masturbar. Mas tinha nojo de foder com ele. Então, de longe, eles faziam uma espécie de sexo virtual até o gozo de ambos. Acontecia todas as tardes. Todo mundo sabia. Mas os três novos operários não tiveram tempo de entender essa dinâmica da vila. Freqüentavam uma dessas igrejas obscuras onde o pastor parece possuído pelo demônio. Machucaram muito Thomas e, de acordo com Tânia, chutaram inúmeras vezes o pau do retardado. No mínimo vai perder a única coisa que funcionava direito nele: a virilidade. Os três machões foram para a delegacia e, como de praxe, voltaram incólumes para suas casas. Estão amedrontados agora. Livres da polícia, porém sabem que se não sumirem de lá morrerão. Os irmãos de Thomas já deram a sentença. Tânia pediu a cabeça dos três novatos. A tensão é grande, pois vingança de periferia é algo brutal e de uma violência primitiva. Nesta tarde acendi meu cigarro e fumei apenas ouvindo essas coisas todas de Tânia. Pela abertura de sua camiseta regata mirei a textura da pele de suas tetas magníficas. Ela notou e tratou disfarçadamente de se exibir ainda mais fazendo seus mamilos balançarem. AS mulheres e seus sortilégios sedutores. Aquilo me deu muito tesão. Pena que não tenho coragem de lhe oferecer grana para foder comigo. A falta de mulher está me deixando frouxo.                             

Escrito por Cass às 14h42
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   Dias sem foder

Há tempos não transo, e isso me deixa irritado. Pelas minhas contas, são três semanas. Isso dá mais de vinte dias. Bem perto de um mês sem uma buceta. Meu amigo Fernando trepa todo dia, cada dia com uma garota diferente. Mente para todas, e elas o amam mesmo assim. Eu não consigo mentir, tento ser o mais honesto possível, mas em compensação não trepo com nenhuma mulher. Penso nos caras zen, aqueles que ficam meditando nos altos cumes silenciosos, e ficam ali por meses até. Alcançam o nirvana, a grande compreensão universal, a sabedoria e a paz necessária para valorizar o espírito. Que merda.  Eu acho isso importante, mas não preciso de uma montanha, me bastaria uma boa foda. Quando transo me sinto zen e tão em paz que consigo me abstrair até do trânsito urbano infernal. Os caras rosnam ao meu lado, protegidos por suas reluzentes e metálicas armaduras de quatro rodas, e eu ali, tranqüilo, feliz, em outra órbita. Agora ando numa pilha de nervos, tenho insônia e diariamente sinto vontade de matar os motoristas à minha volta. Sei que preciso trepar, mas infelizmente sou um sujeito enjoado com sexo. Não que eu queira uma divindade de fêmea, dessas estonteantes e perfeitas, até porque não tenho nada de perfeito, mas meu tesão só funciona bem quando tenho uma certa paixão pela mulher. Isso, por si só, já reduz substancialmente minhas chances de transar. Putas estão fora do páreo, amigas também, safadas e pervas idem, e me restam apenas as garotas comuns, aquelas que a gente olha, curte, sente desejo, gosta do papo, da voz, do cheiro e quer passar horas e horas com elas, dias e dias, semanas, meses, anos. Acho que esse critério tolo e pessoal justifica bem minha completa ausência de sexo há tanto tempo.

Amei muito uma garota. Ela era bem mais jovem que eu. Mas nos amávamos. Ficamos juntos por um tempo, e ela se foi. Claro que a culpa foi minha, pois por mais que cuidemos, nunca nos livramos completamente de nosso espectro sinistro, daquele ser filho da puta que se esconde em nossas sombras. O que sei é que era excessivamente bom transar com ela. Gostava daquele lance de gozar e continuar louco de desejo. Acho que me acostumei mal com isso. Passamos quase dois anos juntos. Fodas incríveis e diárias. Eu literalmente comia aquela mulher: com o pau, com a boca, com os poros, com as mãos. Com tudo. É assim que gosto de trepar. E é assim que sei gozar. Preciso sentir paixão.

Diferente de muitos caras por aí, que fodem por foder, e têm muito prazer nisso, eu preciso sentir paixão até para uma relação fugaz. E nunca me esqueço de minhas transas. Nunca mesmo. Se passei uma noite apenas com a mulher, ainda assim aquilo tudo será eterno pra mim. E marcará para sempre. Não é exagero. É real. É meu defeito. Já fui acusado de conquistador barato. Algumas garotas me disseram que tenho cara de safado, de pervertido, mulherengo e o caralho. E concordo com elas. Tenho essa cara ordinária. Com certeza. Porra, eu tenho espelho. Num antigo trabalho eu, que nunca fui bonito, tinha fama de comedor. “Esse puto come as menininhas direto”, dizia os caras do escritório de vendas. Sim, eu comia algumas, mas nem era direto e essas “algumas” foram minhas grandes paixões. Sei o nome de todas. Tenho contato com todas. E estão todas bem felizes e casadas. Algumas, aliás, bem gordas e feias. Não sei que merda ocorre com as mulheres, pois elas se estragam muito facilmente. Passam da mais deslumbrante beleza à mais terrível feiúra em uns pares de anos. Uma década é o suficiente pra fazer um estrago inominável. Por isso que essa gente que trabalha com estética feminina ganha rios de dinheiro. O legal é que os ajustes, via de regra, dão certo. E a mulher ganha uma sobrevida no visual. Tudo para nos impressionar.

Denise é uma dessas mulheres pela qual me apaixonaria. Seu único defeito é ser muito linda. Não gosto de mulheres com excesso de beleza. Dessas que chamam a atenção em bares e na rua. Primeiro porque elas vivem recebendo as mais variadas cantadas. E nem toda cantada é ruim, algumas são bem eficientes e criativas. Não que eu seja ciumento, apenas tenho convicção que algumas cantadas funcionam. Principalmente quando disparada por caras bacanas, com aquele perfil perfeito e tudo mais. Esses caras, simétricos e belos, fodem bem fácil e se dão bem quase sempre. E esses sujeitos airosos preferem as mocinhas que, como eles, também são bonitas. Creio que, como têm muitas, investem unicamente naquelas que chamam a atenção. Denise é do tipo perfeito. Olhos, rosto, voz. Tudo em ordem. Além de tudo é doce, singela, simpática. Melhor ainda: é mãe. A mulher, quando mãe, ganha um ar mais exótico e sagrado. Ela consegue definir melhor todo esse lance de amor. E sua sensibilidade passa a ser ainda mais aguda. Por tudo isso, estou sempre longe e perto de Denise. Acho que tenho medo de amá-la, o que é bem justificável, pois amar normalmente é desastroso.

Conversei com ela uma ou duas vezes. Mas prefiro mesmo me comunicar por cartas. Assim fico imune à sua voz contagiante. Queria convidá-la para bebermos um vinho. Ando viciado em vinhos de boa estirpe. Estou com umas caixas de Cabernet Franc da Serra Gaúcha. Coisa boa. Tomo um por dia. Vinho dá tesão e melancolia. Coisas que não se combinam muito. Talvez eu não a convide nunca. A gente nunca sabe o que pode nos fazer bem, tampouco conseguimos evitar o que nos faz mal. Hoje pensei o dia todo em Denise. Ela não sabe disso, nem nunca saberá. Quando fico assim pego minha moto e saio por aí na noite paulistana. Não trepo, mas ganho uma boa sensação por estar vivo.  

                             



Escrito por Cass às 15h22
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