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Preciso ficar vivo para receber minhas visitas
Há algum tempo me movimento mais a pé do que de carro pela desesperadora São Paulo. Por diversas pequenas transgressões no trânsito, fui punido com a suspensão de minha habilitação. E achei bem justo. Os motoristas urbanos são grandes patetas covardes que se acham poderosos ao volante. Quanto maior e mais caro o carro, maior é a patetice do piloto. O problema é que, ao volante, não temos um pateta cômico, como o personagem de Disney, e sim um potencial psicopata assassino. A maioria das pessoas ao volante é acometida por um incontrolável ímpeto de exterminar os pedestres. Tenho medo de gente em geral, mas pavor de humanos ao volante. Para mim, ver um sujeito dirigindo um carro é tão assustador quanto vê-lo com uma arma em punho. Creio que acidentes de trânsito matam mais que armas de fogo. Por essa razão deixo de lado o carro. Pois não sou exceção. Há algo de errado no carro. A gente se transforma em perigosos animais irracionais. Sinceramente não me reconheço ao volante. Tenho receio de mim. Caminhando me sinto gente. A natureza, nesse ponto, é perfeita. Somos bípedes.
Procuro usar minha picape apenas para as longas jornadas estradeiras. Na estrada parece que temos mais tranqüilidade, os viajantes são mais solidários. Têm alma e os pilotos não competem tanto. Acho que deveria ser proibido o tráfego de carro pelas cidades. Todos deveriam andar a pé pela metrópole. A gente vê as pessoas, e isso é bom. É importante ver e ser visto. Os motoristas urbanos, covardes como sempre, se escondem por trás de intransponíveis vidros negros. Quanto mais invisível o motorista, maiores são as cagadas perpetradas.
Numa preguiçosa tarde de quarta-feira resolvi sair da redação e ir respirar um pouco. A idéia era tomar um chocolate. Tinha que terminar uma matéria, e não me ocorria o final. Quando isso acontece, preciso andar um pouco. Na rua a inspiração chega inesperadamente. Sempre chega. Penso melhor andando despreocupadamente do que forçando minha mente para concluir algo. Perto da igreja de São Felipe tem uma casa simples que serve doces e afins. Depois de me livrar de diversas tentativas de homicídio pelas ruas que tive que atravessar, cheguei milagrosamente sã e salvo ao meu destino. Acendi um bali-hai e fiquei ali, sossegado, contemplando as pombas gorgolejantes comendo porcarias na praça. De onde caralho vieram as pombas. Com certeza é outra das pragas que os europeus enfiaram em nossos rabos.
Sorvendo o chocolate, me recordei de Dolores. Foi uma bela foda. Por onde andaria Dolores? As pessoas passam por nossas vidas instantaneamente. Parecem tão importantes quando surgem, mas se tornam opacas muito rápido. Penso também em Isabel, uma mulher especial. Essa, é certo, nunca vou esquecer. Tenho uma boa foto com seu sorriso ao mesmo tempo sexy e infantil. A primeira vez que ouvi sua voz foi um momento único. Voz doce de criança, porém com entonação de fêmea fatal. Mora em Curitiba. É casada e sou apaixonado por ela. Tenho essa mania. Cultivo amores platônico. Talvez seja uma forma de me defender de qualquer envolvimento. Minha grande distração nos meus momentos de ócio é recordar o cheiro dela que é muito semelhante ao úmido odor ocre de terra misturado com orvalho matinal da mata virgem. Penso nisso e me dá tesão. Ao contrário da maioria dos homens me excito mais com o cheiro do que com as formas da mulher. Por algum mistério insondável as fêmeas guardam os cheiros de seus locais de origem. As cariocas têm aroma marítimo, as paulistas um bom cheiro de ervas, as mineiras um buquê suave de montanhas, as paranaenses esbanjam os aromas cítricos. É tudo muito peculiar. Tenho uma predileção, por exemplo, pelo cheiro das mulheres de Recife. Suas peles exalam maresias com fragrâncias dos desertos africanos. É um perfume selvagem, tesudo. As pantaneiras têm um cheiro agridoce quase místico.
Transei com Isabel uma vez. E foi diante de seu marido. Ele se excita ao vê-la trepando com outro. Foi ela quem me convidou, e viajei pra lá unicamente para esse fim. Cheguei em seu apartamento e fui muito bem recepcionado. Alberto, o marido, abriu um bom carbernet e tomamos. Depois foi a vez de um malbec argentino. Isabel saiu e voltou com um imenso baseado já aceso. Fumamos no sofá. Na minha vez de tragar, me contive. Maconha tem seu buquê também. Exige-se cerimônia ao fumá-la. Enquanto curtia meu ritual fumegante olhei para o lado e Alberto já beijava Isabel com volúpia. Fiquei na minha, não sabia exatamente o que deveria fazer. Dar uma de voyeur também é excitante e, além do mais, largaram uma marofa muito boa comigo. Vinho, maconha e assistir a uma trepada ao vivo. Nada mal para um recém-chegado. Alberto conduzia bem a situação, parecia um maestro. Sabia que eu estava fascinado por Isabel e a girou levemente em minha direção de modo a exibi-la inteiramente. Com a mão esquerda baixou as tênues alças de seu vestido e expôs seus peitos vibrantes com dois reluzentes bicos negros e duros. Continuavam se beijando. Com a outra mão Alberto ergueu seu vestido de cetim. Primeiro apareceu suas coxas firmes, bronzeadas, daí sua calcinha branca com rendas sutis. Ele passou a perna direita por trás dela e isso a fez ficar praticamente de frente pra mim com peitos e pernas expostos. Ela girou a cabeça, com as costas apoiadas no peito de Alberto, e permaneceram assim, aos beijos. A cada momento que ele esfregava os peitos de Isabel esses vibravam como dura gelatina. Eram firmes e consistentes. Me aproximei e toquei seu joelho. Ela abriu as pernas levemente, como que me convidando a mergulhar no mais obscuro prazer profundo. Eu julguei que seria uma foda a três. Mas foi a dois. Em minutos ela estava inteira comigo e Alberto, sorrateiramente, se posicionou em outro sofá e ficou ali, na sombra, quase incógnito, assistindo a tudo e se masturbando. Passei quase três eternas horas com a doce Isabel. Termino meu chocolate. Não consigo mais esquecer daqueles beijos que foram dados com um carinho incomum. Ela me sussurrava coisas incompreensíveis. Trepamos como dois seres imensamente apaixonados. Isabel me ligou há dias para me avisar que eles me visitarão em São Paulo mês que vem. Vou recepcioná-los em meu apartamento. É um casal adorável. Volto para a redação inspirado para terminar meu artigo. Mas antes vou ao banheiro. Em situações assim não consigo escrever uma linha sequer sem antes gozar.
Escrito por Cass às 15h24
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Comi um anjo
Dolores. O nome me remete àquelas tesudas espanholas ou mexicanas dos filmes de Almodóvar. Tem boa sonoridade, ainda que lembre dor. Penso nela agora e me dá tesão. Que mulher. Morena, como toda Dolores deve ser, intensos olhos negros e lábios libidinosamente carnudos que botaria inveja em qualquer puta. O que dizer do corpo de Dolores? Eu prefiro um singelo neologismo criado por um de meus ex-chefes de redação: punhetal. Quando ele via uma mulher gostosa, daquelas cujo conjunto bunda, cintura e coxas roliças nos remete imediatamente ao sexo, ele disparava: “nossa, essa é punhetal”. Dolores era isso mesmo, punhetal. E apareceu em minha vida como um anjo, assim, como a pedido, ou talvez mediante prece, eis que surgiu Dolores. Sinto sua falta.
Eu a vi pela primeira vez no cemitério. Estava fazendo minha caminhada com meu cachorro, e ela andava vagarosamente, cabisbaixa, fumando um cigarro. Vestia uma calça jeans surrada, com sua suja barra esfarrapada se arrastando pelo chão, um cinto de couro, botinha encardida e uma camiseta branca lisa, meio masculina, mas que não conseguia dissimular seus robustos peitos perfeitamente redondos sustentados por uma barriga rija e emoldurada por cintura virginal. Claro que imaginei “o que caralho faz aqui nesse fim de mundo sinistro uma moça assim”. E, ao me aproximar um pouco mais, notei seus olhos vermelhos de modo que deduzi que chorara por algum ser que morrera e ali estava enterrado. O Pitt a farejou, e se aproximou com seu jeito de conquistador muito seguro de si. E, por sua graça canina, ele normalmente se dá bem nessas abordagens. Se eu o tivesse adestrado não seria tão perfeito. Ela se encantou com o Pitt e, logo, lançou um sorriso simpático pra mim, seu sortudo dono. Trocamos meia dúzia de palavras sobre raça, modos e coisas de cão, e depois caímos naquele profundo e desconsertante silêncio dos desconhecidos. O Pitt lambeu sua mão, pedindo mais atenção, e isso nos ajudou a embalar mais um ou dois minutos de prosa sobre a fidelidade dos cachorros e carinho e tudo mais. Mas não foi o bastante. Eu desejei profundamente que ela ficasse mais ali, mas ela se ajeitava para ir embora. A grande merda é que não sou tão bom quanto o Pitt nesse troço de chegar junto e não saiba o que dizer. Ando desajeitado com mulheres. A gente precisa ter jeito com elas, senão a coisa não funciona. - Tchau cachorro lindo, vou indo – ela se despediu dele já aparentemente refeita de suas dores íntimas.
Escrito por Cass às 18h34
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continua...
Por pouco, muito pouco mesmo, não lancei a cantada mais idiota que um homem poderia lançar naquele momento. Do tipo: “hei, você não quer dar seu número de telefone pro Pitt te ligar qualquer dia desses?”. Isso realmente seria tolo. Me contive.
- Eu também gostei de você! – eu disse de modo meio engasgado.
- Han? – ele proferiu isso e, claro, me desconsertou.
- É, desculpe...bem, é evidente que ele (o cachorro) gostou de ti e só quis te dizer que eu também gostei! – falei isso sem muita segurança.
- Ah, tá. Legal. Obrigada. – e isso foi tudo, a gente sempre fica puto quando a mulher nos corta assim.
- Acho que a gente nunca mais vai se ver né? – indaguei e, agora sim, eu a fiz refletir.
- Por que?
- Oras, se a gente se despedir agora, nunca mais nos veremos! É simples.
- É, tem razão.
- E você não quer mais ver a gente? – insisti.
- Cachorros não se importam com isso...
- Eu não sou cachorro...
- É, eu sei, é uma pena...- ela me disse isso bem séria e eu não levei na esportiva até que ela riu destrambelhadamente. – Desculpe, to brincando contigo. – Ela então abriu sua encardida bolsa de couro, investigou lá dentro por um momento, mexeu bastante, balançou e, enfim, me estendeu um cartão. Ali dizia “DOLORES SEREST, MANICURE”. E havia seu celular. Nos despedimos e segui meu caminho não sem antes dar mais uma boa olhada pra trás para conferir sua balançante e vigorosa bunda.
Escrito por Cass às 18h32
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continua...
Depois de duas semanas de boas conversas telefônicas, algumas até bem sensuais, decidimos nos encontrar num bar perto da Paulista. “Vamos pedir um vinho?”, perguntei. “Só quero uma coca-cola”. Contrariado, pedi um vinho pra mim. Não gostei dessa combinação, mas não contestei nem insisti, tampouco pedi explicação. É odioso convidar uma mulher para beber e ela pede uma merda de um refrigerante. Falamos amenidades, mas eu não estava em um bom dia. Ou talvez, ao que ela pediu a coca-cola, toda sua graça tenha se evaporado. Há coisas voláteis demais. Não sei ao certo. E, pior, ela estava produzida, com uma pintura arrojada, o cabelo incrementado com uma pasta e preso num coque e tudo nela soava demasiadamente falso. Vinho não combina com coca-cola. Por um instante imaginei as duas bebidas misturadas num copo. Me deu ânsia. Ela notou, suei frio. Tentei imaginar sua bunda para resgatar em mim o interesse por ela. Nada. Não tinha efeito. Ela falava agora do namorado idoso que morrera do coração. Era ele quem ela visitava no cemitério quando a encontrei. E eu a imaginava chupando um caralho moribundo com cheiro de naftalina. Mentalmente prometi não fumar mais beck antes de encontros assim. Me esforcei muito para manter minha simpática cara de atenção diante de seus intermináveis relatos sobre seu relacionamento com o finado velhote. Ela foi ao banheiro. Mulheres fazem isso pra que a gente tome uma decisão. Resolvi matar o restante de vinho que havia na garrafa, fui virando as taças sem classe, sem nada, de uma golada só. Estava ácido, ruim, com gosto de coca-cola. Que diabo. Eu a vi retornando, observei bem. Suas ancas eram perfeitas, rebolava a ponto de chamar a atenção até dos discretos garçons. O vestido colado valorizava esse efeito sedutor. As fêmeas têm seus sortilégios. Todas são bruxas, mas poucas sabem enfeitiçar. Dolores parecia agora da segunda categoria. Ela era bem melhor despojada do que arrumada. Mas nem sempre é assim. Comemos pouco, e caímos fora. Ela insistiu em rachar a conta. Não aceitei. Voltamos em silêncio até seu apartamento da periferia infinita da zona leste, apenas ouvindo Nina Simone. O jazz restabeleceu meu tesão. Queria transar com ela. Percorremos as ruas esburacadas da Vila Adélia, virei ruas estreitas e fui penetrando lentamente em terríveis becos obscuros que me davam nos nervos pois era latente a impressão de ser vigiado. Percorremos os pardacentos prédios de um antigo condomínio popular, todos carcomidos e sob intensa penumbra. Ela me guiava com sua voz de santa, irritantemente calma, “agora vira mais adiante à esquerda”, “pega a próxima à direita”, “segue em frente”. Comecei a imaginar como seria terrível a volta, sou ruim de caminho. Isso me deu coragem para ser mais objetivo.
- Olha, não vou saber voltar. Impossível. Vou me perder aqui e se isso acontecer vou me foder.
- Você pode dormir em casa se quiser.
- Eu quero. E também é preciso.
- Tudo bem.
Escrito por Cass às 18h30
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continua...
Tive que largar meu carro na rua. Havia centenas de carros ali para serem roubados. Por sorte o meu não tinha um estado melhor do que aqueles que já estavam ali. Entretanto, por precaução, peguei toda minha tralha e levei até meu bloco de anotações comigo. Ao trancar a porta, secretamente, me despedi de minha velha picape, boa companheira de anos e anos. Coloquei tudo em meus bolsos e seguimos para o prédio número vinte e três. Entramos e subimos pela escadaria até o terceiro andar. Não havia nada que lembrasse o caos. Silêncio e luz em cada lance de escada. Nem pichações encontrei, apenas cheiro de mijo. Ela subia em minha frente e eu, logo atrás, contemplava seu traseiro firme imaginando a maravilha que seria ter aquela mulher de quatro. Entramos no apartamento. Era limpo e cheirava bem. Tudo impecavelmente arrumado. Não sei por que motivo bocejei.
- Você está com sono, não é?
- Nem tanto...
- Ah, sim...tá se vendo! – ela sorriu. Pensei em agarrá-la, acho que era isso mesmo que eu deveria fazer. Mas não tenho coragem, não sou bom nesse lance de sedução. A gente precisa fazer alguma coisa, tomar uma iniciativa. E eu tinha a convicção que precisava compensar o desastre do encontro. Tudo fora muito errado. Vinho e coca-cola, papos cansativos, ex-namorado morto, sono, falta de tesão, quebra de encanto, e ela mora na casa do caralho. Além disso, era pouco provável que eu veria meu carro de estimação na manhã seguinte. Beijei-a com força. Colei-a em mim com meus dois braços, envolvi-a, pressionei seu corpo tesudo ao meu e a fiz sentir meu pau duro bem perto de sua buceta. Sua grossa e vibrante língua percorreu minha boca como uma víbora assustada se enfiando na toca. Imediatamente desci o braço esquerdo, apertei firme sua bunda, me curvei um pouco e ergui seu vestido de modo a alcançar com os dedos sua calcinha. Estava encharcada. Para baixá-la seria preciso interromper os beijos. E isso estava fora de cogitação. Então arranquei-a violentamente. Ela gostou, gemeu e chupou minha língua com tudo. Metemos assim, em pé. Demorei a gozar, não sei quanto tempo, mas o suficiente para sentir o seu gozo por duas vezes. Ela não gritava, apenas se estremecia inteira. Assim que gozei, ela se abaixou rápido e começou a lamber meu pau como uma cadela lambe sua cria. Parecia que ela tinha parido meu pau. Dormimos enlaçados no sofá. Logo cedo a luz do dia invadiu a janela aberta e me despertou. O relógio apontava seis e quinze. Eu estava sozinho no sofá. Ela dormia pesadamente no quarto ao lado. Peguei minhas coisas e fui embora. Há tempos eu não trepava. Me senti muito bem. Meu carro estava intacto. Nunca mais a vi.
Escrito por Cass às 18h29
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