Cassanices
   Saudade da insônia

Faz duas semanas que durmo bem, confortável e pesadamente. Tomo uma pequena dose de um remédio poderoso e isso me assusta um pouco. Todo remédio poderoso tem poder suficiente para causar grandes malefícios. Sempre tive um medo enorme dos efeitos colaterais das drogas. O que pode me acontecer com esse meu sono tranqüilo? Posso ficar sem tesão? Ou ter dificuldades de ereção? Se for esse o preço a pagar para dormir bem, que vá a merda o sono. Por isso nunca usei cocaína. Tinha pavor só de imaginar que essa porra pudesse me atrapalhar sexualmente. Com heroína é diferente, o que me assombra são as agulhas. Herança de minha infância problemática, guardo um execrável pavor de injeções. Portanto, nada injetado. Fico com as ocasionais baforadas, o resto, se é para sair de órbita, não abro mão do milenar vinho.

 

Estou me empenhando para acabar algumas histórias começadas. Mas toda vez que me ocorre uma boa idéia estou distante do computador. E além de não usar bloco de anotações,  tenho memória curta. Então que a história espere até que as coisas se acertem entre inspiração e momento. Dinheiro, que é o que interessa, não vou ganhar nunca com o que crio e costumo chamar de literatura. Portanto, não há pressa. E se eu morrer antes, foda-se, fica tudo inacabado e vai para o lixo. Quem vai se importar? Há milhões de coisas escritas e publicadas.

 

Essas duas semanas de bom sono me preocupam porque não saí para beber em nenhum desses dias. Simplesmente sem vontade de ir a um bar, sentar, pedir uma e outras, conversar e ouvir. O barulho agora me irrita. Enervo-me com ruídos humanos. Começo a não mais suportar os bares. Fui ao cinema, aquelas propagandas de som estéreo me transtornam o cérebro. Os sons oriundos dos sacos plásticos de balas e afins me deixam maluco e os seres que ruminam e mastigam essa porra de pipoca me extrai da alma meu mais abjeto lado psicopata. Será tudo isso indeléveis sinais do nefasto efeito colateral do remédio? Não sei. Ando preocupado com isso. O sol, veja só, esse astro belíssimo, também me irrita. Ainda o tenho em bom conceito, mas abomino a idéia de me expor ao sol ou de ficar com a janela aberta. Fecho tudo. O brilho do sol me deixa letárgico como um jacaré.

 

Ainda não perdi a libido, pois me masturbo. Mas hoje cedo senti algo estranho. Uma mulher me convidou ontem para sairmos hoje. Evidentemente o final disso seria uma trepada. Achei interessante, é uma garota bonita, daquelas que chamam a atenção por seus dotes físicos, mas agora, penso a respeito, e não sinto qualquer impulso em concretizar isso. O que há comigo? Não sei! Não pode ser efeito do remédio. Simplesmente não me interessa. O sol está ameno e vou andar, faço meu trajeto circulando pelas alamedas do cemitério. Tudo é tranqüilo aqui, pouco som, alguns jardineiros, coveiros, vira-latas, ratos e mendigos. Mas o silêncio é tão solene que até alguns gritos são abafados pelas árvores que adornam os jazigos. As velhas árvores formam esculturas curiosas, monstruosas e seus galhos parecem braços enrugados e ressecados erguidos ao céu em alguma espécie de veneração. Se meu lado suicida predominasse em minha alma seria um convite tentador enforcar-se pendurado nessas sinistras formações suspensas. Pensei nisso nesta manhã.

 

Mas botar fim à própria vida é uma grande bobagem. Uma piada de mau gosto consigo mesmo.Dormir tanto também não me parece muito saudável. É como morrer a prestações. Ando estranho. Não vou sair com essa mulher. Ela que dê para outro. Há muitos homens por aí dispostos a foder a qualquer momento. E eu perdi a paciência com essa coisa de sexo pelo sexo. É preciso dialogar depois do gozo, é preciso muito fingimento antes, durante e depois. Um amor beat estaria perfeito. Aquele sem travas, apaixonado, que a gente quer a todo momento, sem possessão alguma, que desconhece o ciúmes, somente sabe conjugar o verbo amar. Dizem que não existe. Fantasioso demais. Porra, preciso de minha insônia de volta.              



Escrito por Cass às 16h29
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   Os perigos da palavra escrita

Acho que foi Esopo quem disse que a palavra tem um poder extraordinário. Por isso mesmo, para correr o menor risco possível, é preferível sempre falar a escrever. Como não levo muito jeito com as palavras proferidas pela boca, arrisco-me a escrevê-las em silêncio. Mas isso é terrivelmente perigoso. Melhor mesmo é falar, conversar, dizer as coisas. Pois assim, a despeito do bom ou mau efeito, sobretudo quando se trata de mau efeito, a verdade é que o que se diz, tudo mesmo, é volátil. É como um peido. Uma hora o fedor se dissipa e pronto, tudo volta ao normal. Podemos, inclusive, alegar embriaguês, estresse ou problemas de toda ordem por ter dito alguma bobagem. Mas, quando as bobagens são escritas, aí a coisa complica sobremaneira. Armei grandes encrencas em minha vida devido a esse meu defeito. Além de tudo, para piorar, gosto de escrever cartas e agora, aliciado pelas benesses da tecnologia, sou um fervoroso adepto dos e.mails. Escrevo para amigos e, em especial, para uma mulher que, infortunamente, já não sei mais imaginar meus dias sem ela. Isso também não é nada bom, mas tudo que é ruim, ruim de verdade, é absolutamente inevitável.

Pois bem, enviei meu e.mail num dia particularmente desfavorável para qualquer arroubo romântico. Atravessava, na verdade, aqueles dias em que o homem está mais perto de seus cavernosos instintos animalescos. Nas fêmeas chamam esse estado de demência espiritual de cio, já nos homens, não sei, se eu for definir apenas como tesão seria como colocar panos quentes, diminuir substancialmente tal sensação que me parece, de fato, indescritível, tamanha é sua veemência e pujança libidinosa. Também não tenho qualquer embasamente científico para generalizar, mas me assusta demasiadamente sequer imaginar que tal manifestação, suponho que demoniaca, particularmente por ser incontrolável, seja algo inerente a poucos, entre os quais, está inserida essa pobre alma que vos escreve.

Comecei então a eletrônica missiva imediatamente descrevendo o que havia imaginado há minutos e que me levara a deleitar-me com o gozo da masturbação. Eu poderia, certamente, ter sido mais sensível e delicado, quiça ao menos mais terno, mas não, o estado insandecido, mesmo após ter me saciado falsamente, me fez ir direto e lascivamente às descrições de como eu a imaginava. Pormenores que não ouso reproduzir aqui pois agora, ao ler sua resposta, quase chego a me envergonhar de estar vivo. Mas na hora, naquele momento de debilidade carnal, apenas dedilhei freneticamente as macias teclas do meu micro e ali fui desenhando, por meio das palavras, cenas que, talvez, nem mesmo o mais chulo filme pornográfico seria capaz de reproduzir.

A resposta demorou dois dias. 48 horas de angústia. E minhas insistentes ligações telefônicas repousaram todas na sua fria caixa postal de recados. A gente nunca sabe ao certo exatamente onde diabos erramos, mas o silêncio da mulher amada é atroz. Mudas, elas nos torturam muito mais que quando, em casos mais amenos, soltam seus ensurdecedores berros histéricos. Quando uma mulher explode contigo, grita e esperneia, é um bom sinal de que as coisas caminham para o entendimento. O contrário, pode ter certeza, o caso é de uma gravidade excepcional. O silêncio da fêmea se dá quando a falha do macho está bem próxima do imperdoável. A mulher é um ser formidável, mas complexo demais para ser analisada e compreendida por humanos. Seu e.mail, lacônico porém frio e letal como um iceberg, resumidamente dizia isso: "nunca mais me escreva. E em vez de me confundir com uma, vá procurar uma puta, você só pode estar doente".

A sensação que se abateu sobre mim foi de uma tristeza avassaladora. Pois eu, por diversas vezes, suportei estoicamente seu doce cio e sua febril tpm que, sempre depois, quando era ela dobrada pela providencial cólica, que não é outra coisa senão o castigo dos deuses pelos maltratos que seu lado diabólico imputava a mim, eu cuidava dela com remédios, mimos e carinhos. Mas diante de seu tesão, na hora que a filha da puta queria foder como uma cadela, ali estava eu, pronto, viril e docemente servil à sua volúpia. Agora, por um e.mail meu, por palavras jogadas ali que não retratavam outra coisa senão o meu direito de também externar meu lado primitivo de reprodutor, recebo em troca essa insidiosa e humilhante resposta. Entretanto, devo admitir e reconhecer a milenar sabedoria de Esopo: a palavra tem sim poderes até sobrenaturais. Tivesse eu, em vez de ter escrito, dito tudo aquilo para ela, na hora apropriada do sexo, e estaríamos perfeitamente bem. Mas não, escrevi. Pior, ela, em resposta, também me escreveu. E assim, na escrita, uma longa e outra curta, terminamos de forma melancólica. Até que tentamos voltar, mas o orgulho de ambos falou mais alto.         

 

    

  



Escrito por Cass às 10h17
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   O homem sem buceta

Incontáveis dias sem trepar transformam homens em selvagens. Sim, é como se estivéssemos nas imundas trincheiras da guerra. Pensamos em morte, matar, morrer, feridas, tiros, facadas. As coisas tomam nuances perversas. O espírito nos abandona. Resta carne, nervos tensos e ossos. O testosterona está ali, como uma bomba, injetando adrenalina em cada músculo. Conheço homens que passam muito bem sem sexo. Ficam tranqüilos, mente sã, elevam a alma, rezam, fazem peregrinações e jejuns. Porra, eu fico puto. Há duas coisas que, sem elas, fico muito próximo de um pobre diabo atormentado. Falta de sexo e comida. De preferência carne. Gosto de carne. Tenho caninos afiados e vigorosos para destrinchar carne. Foram confeccionados para morder. Com força. Também me agrada o gosto ferroso de sangue. A falta de sexo faz com que a bomba funcione com mais tensão de modo que durmo pouco, tenho quase nenhuma paciência e vivo propenso a encrencas das mais variadas espécies, particularmente, brigas. Um ser, essencialmente, primitivo. Aqueles homens das cavernas, decerto, fodiam pouco. Isso nos abrutalha demasiadamente.

 

Passo uma boa parte da manhã me exercitando. Duzentas abdominais, cinqüenta flexões. Bufo, os pulmões pedem ar. Descanso. Pego os alteres, faço seqüências de 100 trabalhando bíceps, tríceps e sei lá mais o que. O importante é suar, se não fodendo, que seria o ideal, ao menos se exercitando. Os músculos ficam tensos. Tudo ao som de Motorhead. Os rifs das guitarras me animam. Faço mais abdominais, depois mais flexões. Me sinto viril. Vou andar pelas ruas da periferia. Shorts, camiseta regada, tênis. Sinto os braços e pernas vibrarem, sinto-os rijos, saudáveis e fortes. Sigo às largas passadas. O próprio macho percorrendo a bruta savana da metrópole em busca de sua fêmea no cio. Pronto para matar se for preciso. Vou em frente, respiração compassada. Tudo em ordem. Nenhuma dor. Fôlego perfeito. Mas contorno o parque para evitar as pessoas. Me parecem macilentas, doentes. Entro no cemitério. Ninguém. Melhor assim. Sinto-me mais vivo no cemitério. Aumento o ritmo dos passos. Não penso em nada. Apenas em queimar energia. Gastar testosterona.

 

Onze horas. Volto, o suor escorre, cheiro meu braço. Lembro da fêmea na cama e logo busco outros pensamentos. É preciso ter paz, senão enlouquecemos. Mas não estou cansado. Entro no condomínio de minha irmã e vou direto para a piscina. Bem que poderia ter uma boa alma feminina desocupada por ali. Uma gostosa solitária e triste em busca de uma tarde de sexo selvagem. Mas não há ninguém. Apenas eu dando minhas braçadas. Relaxando, se exercitando, relaxando de novo. O zelador faz cara de reprovação, mas me tolera, pois deve favores à minha irmã. Eu noto, finjo ignorá-lo, embora sinta vontade de estrangulá-lo. É mais jovem que eu, deve ter uns 30 anos, parece bem, mas eu poderia destroçá-lo com as mãos. É esse o sentimento que se avulta em mim. A vontade de matar outros machos. Isso me assombra a noite, mas durante o dia, me mantém vivo e feliz. Enfim me largo em uma espreguiçadeira e relaxo de vez. Agora é o carinho do sol por alguns minutos dourando um pouco minha pele. Como narciso, aprecio o brilho da pele úmida e os meus próprios contornos. Ignoro meus defeitos, curto minhas perfeições. E gosto do que vejo. Foda-se se a vaidade é uma avareza, um defeito. Do sexo também falam mal, e eu gosto pra caralho de trepar.

 

Para fugir do câncer de pele não fico mais que quinze minutos ali. Seco pelo vento e sol, visto a camiseta e ainda dou uma boa olhada despretensiosa ao redor na gana de avistar uma fêmea. Bem que podia mesmo aparecer alguma mulher. Mas que nada. Ninguém a não ser um bando de adolescentes que começa a se mover para entrar na água. Três garotinhas e quatro rapazes. Todos bem formados e com aspecto saudável. Acho que por volta dos 15 ou 16 anos cada um. Duas são ligeiramente gordinhas, todavia sensuais, e a outra ostenta a perfeição natural da idade. Bunda, cintura, cabelos, coxas. Tudo na mais perfeita ordem. Pronta para o glamour do sexo. E o melhor a fazer é mesmo dar o fora dali desejando, no pensamento, sorte aos garotos. Tive meus bons tempos de adolescente, e me dei muito bem. Não sei se foi impressão, mas acho que a bonitinha sorriu lascivamente pra mim. Segui meu caminho. Prefiro pensar que garotinhas assim não sabem foder e, mesmo se soubessem, te foderiam a vida. Apenas por brincadeira pensei: “fosse em épocas imemoriais, meus instintos me levariam a esganar esses quatro pirralhos e trepar com as três garotas”. Muito tempo sem trepar causa danos mentais piores que insolação.

 

Em casa, depois de um bom banho, e copo de uísque entre grandes gelos em mãos, me animo a escrever. Há um livro começado e nunca terminado. A história flutua em mim, é desesperador, anda por onde ando me assombrando. Mas preciso de uma buceta para poder botar as coisas no computador. Para organizar as idéias, pra dar lógica às seqüências e fatos. Para não embaralhar as letras, para não tornar tudo confuso e abstrato. Será que Sartre fodia? Não sei, acho que não devia foder muito não. O cara era abstrato demais. Não posso fazer comparações. Há quem, sem sexo, escreva muito bem. Mas todos precisam de algo para escrever. Drogas, álcool, paz, montanhas, aventuras. Eu preciso de bucetas. É bem simples. Poderia até pagar por uma. Há boas ofertas na cidade. O que não há como comprar é paixão. Bem, estou diante do micro agora. A branca tela do monitor parece que zomba escandalosamente de mim. As palavras não saem, mas as idéias continuam a fervilhar e a me assombrar a alma. É certo que passarei mais uma noite sem trepar nem dormir. Amanhã vou aumentar a dose de exercícios. Um dia encontro a tão almejada buceta inspiradora. E assim concluo meu livro.         



Escrito por Cass às 17h37
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   Amor empobrece

Naqueles dias o dinheiro andava curto. Sempre estive na linha da pobreza, mas nunca passei fome ou fui miserável. Porém, experimentei o que realmente significa privações durante um bom tempo. Realmente sem grana. Poucas vezes me vi assim. Meu consolo foi pensar que os grandes gênios da literatura se foderam muito mais que eu em questões financeiras. Ou, pelo menos, diziam que se foderam. Todo escritor é um inescrupuloso mentiroso profissional. Portanto acreditar nessa raça é o equivoco mais infantil que uma boa alma pode cometer.

Temos que reconhecer, é muito curioso como, na literatura, parece que ser esfarrapado e fodido confere ao cara uma romântica aura mágica. Seria como, no início do Século, morrer de tuberculose. Poeta bom tinha que morrer de tuberculose. Depois, no Século 20, veio o culto à miséria e às drogas. Ser bêbado passou a ser a condição indissociável de talento literário. Me parece que até hoje é assim. Senão você passa a ser taxado como autor burguês. Não ser alcoólatra passou a ser algo como ter o espírito fraco. É uma tolice isso tudo. Uma grande estupidez essa coisa de que, pra ser escritor, você tem que ser diferente ou marginal. Os seres-humanos são tão iguais que chega a dar nos nervos. Somos uma raça monótona e previsível. Por essa razão alguns artistas buscam algo que os diferencie. Normalmente, como são desprovidos de muita criatividade, andam esfarrapados, bebem pra caralho ou vivem sob a ditadura dos entorpecentes.

Fico longe dessa turma. Como não me sinto um escritor, e prefiro ser jornalista, ganho meu dinheiro e não preciso encher a cara em bares imundos até construir uma cirrose. Ninguém me convence a tomar vinhos baratos e tampouco preciso ter crises de depressão e pensar em suicídio. Não preciso se rabugento e nem mesmo viver como um pária da sociedade. Também não tenho nenhuma razão para me hospedar em hotéis decadentes e trepar com putas doentes. Bem, mas devo admitir, mesmo contrariado, passei um tempo em Curitiba numa espelunca que ousaram chamar de hotel. Foram quase dois meses ali. Pagava 150 paus por mês por um quartinho mal ventilado em um prédio poeirento que parecia soterrado sob um viaduto. A noite toda o tormento do barulho de carros. Só dormia com remédios e nada de útil produzi além de umas cartas pedindo emprego e oferecendo frilas em jornais locais e outra carta que nem cheguei a enviar. Dezenas de dias de genuína merda financeira. E, paradoxalmente, fui parar ali devido a uma promessa de ganhar 10 mil reais. O troço não deu certo e resolvi ficar por um motivo que por muito tempo me envergonhei em admitir mas agora resolvi contar: por amor.

Conheci uma garota em São Paulo. Estava fazendo uma reportagem sobre a desapropriação de uma creche e lá estava ela. Trabalhava para uma organização sem fins lucrativos que visava ajudar aquela gente fodida. Tirei umas fotos, entrevistei um e outro e depois gastei meu tempo em observar aquela mulher que usava uma calça jeans bem larga mas não o suficiente para dissimular a harmonia de seu corpo. Ela caminhava de um lado a outro, parecia nervosa, e nessa pressa sua bunda vibrava, seus peitos dançavam rijos e sua tez suada conferia em sua face rosada um brilho leitoso. Perguntei a uma freira quem era aquela e apontei pra gostosa. Ela me explicou o que acabei de dizer aí em cima. Então eu disse: “Quero entrevistá-la”. E a filha da puta da freira imediatamente chamou um sujeito alto, asqueroso e falador que era, segundo a religiosa, o chefe da porra da organização. Aquilo me tomou tempo mas logo inventei que queria traçar um perfil de um voluntário. Ele então chamou aquela furiosa garota deslumbrante e brilhante. Anna era seu nome. Assim, com a letra n dobrada. Tirei fotos, ela posou, sorriu com seus dentes infantis e lábios voluptuosos mas o grotesco diretor da ONG ficou ali, estático, de ouvido. O cara devia ser afins dela. Mas fui hábil. Perguntei se ela queria que eu lhe mandasse as fotos, ela disse que sim, então peguei o fone e cai fora.

Conversamos dezenas de vezes antes de tomarmos um bom vinho no bar do terraço Itália assistindo no horizonte infinito a noite prateada de Sampa. Ela estava com um vestido preto e um decote desconsertante. À mesa falou de seu trabalho, de sua militância político-social, de suas viagens pela África, de seus cursos e dos problemas que assolam o país. Sou um ótimo ouvinte. Peco apenas pela indiscrição de meu olhar que, mesmo sob meus severos cuidados, insistentemente, creio que na verdade, instintivamente, repousavam em seu decote ou, como feitiço, em sua boca úmida. Estava usando um batom, mas era algo tão sutil que parecia apenas que seus lábios ganhavam vida própria. Claro que prestei atenção em tudo o que ela relatava, mas não pude disfarçar meu desejo. Fiz menção de pedir a segunda garrafa quando ela, subitamente, de surpresa mesmo, me disse: “quero beber outro vinho contigo em outro lugar”. Sim, disse isso mesmo e com uma voz e um olhar tão lascivo quanto determinado. Reside exatamente aí a divindade feminina.

Terminamos a noite abraçados em sua cama de solteiro como dois antigos amantes. Tomamos um café da manhã simples juntos, ela me serviu e me olhou com carinho e intimidade, e nos despedimos com um beijo. Nos encontramos intensamente por duas semanas, quando ela me contou que voltaria pra Curitiba, sua terra. E partiu já no dia seguinte. A gente se falava diariamente, mas era preciso o toque, o cheiro, a carne. Dois meses depois ela me escreve sobre um projeto social que ela coordenava e que uma produtora de cinema faria o vídeo sobre aquilo. Queriam um roteiro ou algo assim e ela me indicou. Falei com os caras. E, verbalmente, acertamos tudo. Dez mil reais por duas semanas de trabalho em Curitiba. Perfeito. Dinheiro fácil e quatorze dias de foda intensa. Chegando lá descobri, no segundo dia, que o dono da produtora estava comendo a Anna. Ela ficava comigo e com ele e ele, talvez mais tolo que eu, sabia e concordava com isso. Eu os flagrei aos beijos na produtora. Caralho, ela fodia comigo a noite toda e, durante o dia, ficava com o sujeito enquanto eu escrevia a porra do roteiro. Foi a primeira vez que me senti verdadeiramente corno. Todo homem tem seu dia de corno. Aquele foi o meu dia. A reação foi dar um tapão na cara dela o que a fez rodopiar e estatelar com sua linda bunda ao chão. Ficou ali chorando com um vergão imenso no rosto. O tal sujeito, daqueles tipos que usam óculos com armação retangular e grossas hastes pretas, bateu com as duas mãos em meu peito e me chamou de covarde. Eu não pretendia fazer nada com ele mas ele gritou alto e eu odeio gritos estridentes. Então apliquei-lhe um direto no nariz, errei o cálculo e exagerei na força. Pegou entre o nariz e o olho. Fez um estrago feio. O cara foi para o hospital, Anna para a delegacia e eu fichado no DP.

Escrito por Cass às 10h10
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   continua...

Fiquei sem foda e sem dinheiro em Curitiba. Mas a cidade me parecia boa. Havia um festival de teatro. Muitas atrizes circulando. Os bares lotados de mulheres ávidas por sexo. A gente sente isso na alma. Tirei minhas coisas da casa de Anna e me transferi para essa merda de hotel barato no velho centro com quinhentos reais no bolso. Eles me pagaram por dois dias de trabalho. Adiantei 150 pro hotel pelo mês. O resto era para viver. Mas as coisas, mais uma vez, não saíram como o planejado. Subitamente perdi o interesse por mulheres e bares. Passei dias trancado naquele exíguo e fedorento quarto apenas lendo. Saia para comer e tomar alguma coisa. Meu corpo queria sair e curtir a cidade, mas minha alma não concordava com aquilo. Nesse conflito a alma sempre vence e o corpo padece. Escrevi e envie cartas pedindo emprego. Mas não havia qualquer razão para eu ficar na cidade. Quarentas dias ali, quarenta reais no bolso. Pensei todos os dias em Anna. Escrevi a ela uma longa carta. Não entreguei. Meu amigo me enviou cem reais para minha passagem de volta à Sampa. Trouxe a carta comigo. Agora a releio e parece que consigo sentir o gosto frutado do beijo de Anna e o perfume ferroso de sua pele de santa.   

 

 

 



Escrito por Cass às 10h10
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   Fim de semana no interior

Dinão chutava sua moto sem dó. Nunca antes havia visto alguém desferir tantos e impiedosos pontapés em uma Harley rara. Foi uma incrível série de cinco ou seis furiosas bicas que botou abaixo o pára-lama dianteiro e deixou marcas negras da bota no tanque amarelo. Depois ele dava voltas mancando em torno da moto, fungava e, por fim, se abaixou e fuçou nas entranhas do motor. Fiquei ali, assistindo e tomando cerveja, ao lado da minha moto. Estávamos num posto na Dutra e uns caminhoneiros riam da cena enquanto uma mulher puxava rapidamente seus filhos para dentro do carro. A moto estava com problemas no carburador. Falhava muito e não desenvolvia seus mil e duzentos cavalos de potência. Do jeito que andava mais parecia que era propelida por uns trinta esquálidos pangarés. Paramos no posto pra averiguar, mas eu não entendo bulufas de mecânica. Portanto apenas peguei uma latinha de cerveja e fiquei ali, bebendo e esperando o veredicto que veio na forma de um “foda-se, vamos continuar assim mesmo”. Bem, ajudei-o a amarrar o pára-lama abatido, ele botou uma latinha de óleo no tanque de combustível e partimos de forma ruidosa mas num ritmo desesperadoramente lento. A velocidade daquela égua velha não passava dos 80 quilômetros por hora. Vez por outra eu acelerava um pouco mais para driblar a monotonia. Chegamos, por fim, a Resende, após umas cinco horas de tédio na estrada.

Rapidamente arrumamos uma espelunca barata para dormir. Trinta reais a diária, com café da manhã. Um hotel antigo, do tempos auges dos tropeiros. Por esse preço, nem pechinchamos e pegamos dois quartos e com camas de casal. Era um daqueles sábados letárgicos com sol fritando os miolos, duas e meia da tarde, já tínhamos comido pastel e caldo de cana na estrada, de modo que a melhor coisa a se fazer era dormir. Claro, o quarto era um forno, mas o ventilador, apesar de barulhento, funcionava. Acordei às cinco, tomei um banho, desci e fui direto para um boteco em frente à praça onde estava o hotel. Pedi cerveja e fiquei ali, curtindo a cena bucólica. Praça, igrejinha, o eloqüente e barrento rio Paraíba e umas mocinhas bundudas transitando tranqüilamente com seus shortinhos cuidadosamente enfiados bem no meio do cu. Não sei, não contei, mas arrisco o palpite que havia centenas dessas espécies. Notei que elas perambulavam sem um destino, apenas circulavam pois as que mais me chamaram a atenção, sim, as mais gostosas, passaram pelo outro lado da rua mais de uma vez. Elas andavam em dupla ou em trio. Sempre assim. E eu não sou o que se poderia chamar de sujeito atraente, tampouco sou jovem, mas elas, inclusive as bem novinhas, me lançavam olhares, daquele tipo, que todo homem reconhece, que significa “cara, to com muita vontade de uma rola”.

Minha idéia era partir no dia seguinte após o almoço. A gente faz isso de vez em quando. Sai de moto, roda por alguma estrada e pára quando cansa em alguma cidade. É uma diversão, uma maneira de aliviar as tensões. Então tínhamos uma boa noite à toa para ficarmos ali apreciando aquilo tudo. Quando o garçom trouxe a segunda cerveja o Dinão apareceu. O Dinão é um sujeito bacana, meu grande amigo. O problema é que ele tem uma espantosa cara de psicopata. É vesgo e tem impressionantes 32 graus de miopia. Nunca vi um cara pilotar moto sendo, tecnicamente, cego. Mas ele toca aquela Harley de 1947, com câmbio na mão e o guidão no céu, com maestria e, muitas vezes, bêbado. É sua paixão. Acho que seu grande amor, pois vira e mexe eles brigam feio. Trocam porradas. Então, é amor mesmo. Chegou, sentou, encheu seu copo, botou um cigarro na boca e ficou ali, estirado na cadeira em silêncio. “Nunca vi tanta mulher gostosa de uma vez só como tem aqui”, eu disse. “Aqui aonde, não tem ninguém nessa porra de bar”, ele respondeu. Eu o conheço há mais de trinta anos e tudo o que precisei fazer foi ajudá-lo a ajustar seu foco, mas o sol, já se pondo bem na nossa frente, e embora fazendo um verdadeiro espetáculo na margem direita do rio, o cegava completamente. “Quando o sol baixar você vai entender o que to te dizendo”, eu disse. “Daí que não vou enxergar mais merda nenhuma”, ele respondeu. “Respire fundo, sinta a delicada fragrância das bucetas”, foi o que me ocorreu. E ele abriu as narinas, sugou o ar com ímpeto, encheu os pulmões vigorosamente e repetiu o exercício por mais cinco ou seis vezes. “Bucetinhas no cio”, suspirou. Ficamos bebendo ali por mais duas horas. Cachaça e cervejas. Nenhuma garota sentava-se ali, mas a maioria passava diversas vezes pela nossa frente. Algumas nos lançavam sorrisos lascivos e o Dinão erguia o copo para aquelas que, ao me perguntar, eu dizia: “são gostosas, essas valem a pena”. E então ele abria o sorriso e dizia “amém, você é muito linda”. Quanto mais bebíamos, mais inventivas e sem sentido ficavam suas frases em homenagem às garotas bonitas que, aparentemente, desfilavam unicamente para nós. “Você merece o céu, meu amor”, “sou seu escravo, quero apenas te amar”, “lamberia o tutanos de seus ossos” e outras tolices que não me lembro, algumas, inclusive, espantosamente de baixo calão. Era certo que aquilo não faria efeito algum, era mais provável que as afugentaria, mas estávamos altos e eu não me importava. Queria apenas relaxar.

O movimento foi baixando aos poucos. Oito da noite e aquilo virou um ambiente fantasmagórico. Espectros andavam rapidamente e garotas, como que atrasadas, se apressavam para dar o fora. Era como se um monstro, a partir daquela hora, passasse a dominar tudo por ali. Perguntei ao dono do bar que merda estava acontecendo. Ele apenas me disse que era assim mesmo. O pessoal se recolhia cedo. “Mas hoje é sábado”, eu disse. “Hoje a gente fica até as dez”, ele respondeu me deixando na mesma. Pedimos uma pizza que ele propagandeava numa plaquinha e continuamos a beber e mijar. Tudo deserto. Uns cinco caras negros chegaram, nos cumprimentaram, pegaram uma mesa e se ajeitaram ali. Depois chegou um alemão esfarrapado e ficou parado no balcão. Logo em seguida entrou outro grupo, mais eclético racialmente: cinco homens sendo que o mais velho tinha aspectos de boliviano. Parecia o Evo Morales, só que muito mais inchado. Os outros quatro eram jovens mal encarados e visivelmente atormentados com alguma coisa porém, ao que parecia, respeitavam e temiam o estranho com cara de boliviano. Comemos a pizza, tomamos mais duas cervejas e falamos de viagens. Não havia mais uma única mulher circulando. O doce cheiro de buceta cedera lugar a um fétido odor de suor de macho fodido. “Vamos sair fora dessa porra de lugar, aqui ficou uma merda”, eu disse para o Dinão. “Ééé”, ele me respondeu. Pagamos e caímos fora. Nove da noite, dois caras bêbados, sem nada pra fazer, cidade deserta e sem sono. Acendi o beck e resolvemos caminhar um pouco por uma triste avenida escura que margeava o rio. Não encontramos nada além de insetos que nos vampirizaram durante todo o trajeto cambaleante. Fosse um filme ou um conto de Pedro Juan certamente treparíamos com algumas prostitutas deixadas para trás. Na história de Anais Nin, talvez, nos metamorfosiaríamos em duas bichas. O fato é que voltamos ao hotelzinho de merda, escutei o escandaloso ronco do Dinão até as quatro da manhã e, foi nessa hora, que consegui pegar no sono.             



Escrito por Cass às 15h31
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   Saco cheio de mim

Passei um bom tempo sem escrever nada. Neste período fiz coisas mais interessantes: viajei e trepei. E as duas coisas, infelizmente, não estão relacionadas. Se eu fosse uma garota, eu foderia toda vez que viajasse. Como homem isso fica mais complicado, pois temos que cantar e seduzir pra poder trepar. Não sou bom nisso. Franco demais para seduzir, e puto demais para cantar. E as poucas regras que sigo são as de conduta, de modo que não encontro uma garota interessante e vou logo dizendo: "vamos trepar?". Seria perfeito se isso fosse possível, mas não pega bem. Temos que ser cavalheiros e tudo mais. Falar de vinho, literatura e atualidades. É uma merda. Deveria ser o contrário: primeiro uma boa foda, depois, curtindo o pós-gozo, aí sim discorrer sobre assuntos interessantes.

Deve haver alguma explicação psicanalítica para meu atual estado de espírito. Me sinto um sujeito desinteressante. Não estou me suportando, me acho um chato. Estou cansado de minha companhia. Isso seria falta de amor-próprio? Mas que porra de amor suporta tanto tempo uma pessoa? Convivo comigo há 42 anos. E estou meio de saco cheio de mim mesmo. E isso nem é papo de suicida. Não, não faria isso. É que estou meio puto comigo. Sem razão, apenas puto. Talvez seja essa intransigente insônia. Essa coisa de não dormir me faz passar mais tempo comigo mesmo. Quem dorme tem esse alívio de si mesmo por umas boas horas. Eu não, fico sem dormir por um tempão. E, então, passo mais tempo comigo mesmo! Um saco.

Queria estar ao lado de um grande amor agora. Seria perfeito. Sentir a pele fria e a textura sedosa da minha fêmea. Ah, que maravilha. Ser desejado por ela, e ficar ali, na cama, com ela ronronando e roçando-se em mim. Lembro disso. Um dia tive isso. Sim, desfrutei disso tudo por um bom tempo. Depois acabou. Milagre acaba, bons vinhos acabam. As coisas boas são voláteis demais. Um dia seu grande amor resolve te cobrar uma porção de coisas. E você, geralmente um idiota, só consegue atender parcialmente. A gente nunca consegue ser bom por inteiro. Nem mesmo quando nos esforçamos muito. Os defeitos borbulham, transbordam e um dia falam mais alto que as qualidades. O amor é como esquentar o leite. Com o tempo ele vai subindo, espumando e daí transborda e apaga o fogo. 

Conheci uma garota. É possível que eu a ame. E esse é meu maior temor. O amor nos torna demasiadamente idiotas. Já a falta de amor nos torna amargos, insones porém sensatos. E os sensatos vivem melhor. Talvez vivam até mais tempo. Tenho certeza que, até por nossa necessidade de sobrevivência, temos um limite para o amor. Não amamos tanto e tantas vezes. Diferente do tesão, que é instintivo, creio que o amor foi inventado para causar problemas. Ah, que tolice. Muito tempo sem trepar nos faz elucubrar sobre essas coisas todas. Por outro lado me sinto mais puro. E, sobretudo, mais preparado para uma paixão. Mentira. Preciso ser franco. Uma boa trepada me faria muito bem. Por ora, ainda fico na punheta. Mas minha mão não me suporta. Ando de saco cheio de mim.     

 

 



Escrito por Cass às 00h18
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   Mulheres incompreensíveis e o grande fodedor

Fernando é um de meus mais próximos amigos. A gente se vê toda semana, bebe junto e um segura a barra do outro. Mas ando cansado dele. É um tipo muito singular de sujeito, o Fernando. Esteticamente eu diria que ele se enquadraria perfeitamente no padrão de feio. Mas isso não é o problema. Eu não tenho amigos bonitos. Há uns cinco ou seis sujeitos que são realmente meus amigos. E são todos feios como eu. Não diria asquerosos, tampouco repugnantes. Somos, todos, dotados de uma certa desarmonia estética com um leve, quase imperceptível, toque de elegância. Um certo charme que nos ajuda, eventualmente, a agradar uma ou outra mulher. O que é bem evidente é que não somos simétricos, como vejo por aí galãs e caras realmente bonitos. Curiosamente, e não sei a razão disso, nenhum de nosso grupo é gordo. Tem o Gibão, meio bojudo, mas ele é mais forte que gordo. Porém somos todos feios, nem mesmo quando jovens éramos bonitos. Eu me auto-denomino um feio excessivamente vaidoso. Gosto de cuidar do corpo, de ficar em forma por razões puramente sexuais.

O Fernando é um magro que, recentemente, ganhou uma barriga. Seu conjunto ficou ainda mais desarmonioso. Parece um lagarto saindo de uma pêra. Mas ele é o cara e tem algo que não temos como negar. Do nosso grupo de seis amigos ele é, certamente, o maior fodedor. Se somarmos todas as mulheres que os cinco já comeram não chega à extraordinária e incalculável cifra de Fernando. Certa vez tentamos fazer uns cálculos. O número exorbitou. Largamos mão. Na média o cara trepa uma vez por semana e, cada vez, com uma filha da puta diferente. Mente para todas. Troca o nome, diz que tem cinco anos a menos e nunca releva que é casado. Fernando tem uma mania, talvez adquirida para que nós, os amigos, não duvidássemos dele: tira foto de todas elas e nos mostra em seu notebook que leva sempre à tira colo. São garotas lindas, indubitavelmente tesudas. O cara não sai com mulheres feias. Tem mais, a maioria delas é muito bem formada. Advogadas, médicas, dentistas, psicólogas, professoras e por aí vai. Recentemente ele anda fodendo com uma empresária muito bem sucedida que tem três restaurantes finos em Sampa.

Ele me conta sistematicamente, e pormenorizadamente, suas histórias. No começo era interessante. Mas ando de saco cheio. Sua criatividade é uma lastima. Diz a mesma merda para todas. Recita a todas que as ama e pede todas em namoro. O que me intriga é que o sujeito é feio, nunca tratou os dentes, tem aversão a qualquer coisa relacionada à cultura, não pratica esporte, fuma pra caralho e a única bebida que conhece é cerveja. Não perca tempo em falar de cinema ou literatura com Fernando. Ele não suporta. Fale de buceta. Pronto. É sua especialidade. Sim, porque ele trata as mulheres como bucetas. “Meu, peguei uma buceta semana passada que você não vai acreditar”, é sua frase repetida ad nauseum. Seu outro assunto é trabalho. Ganha bem vendendo artigos para médicos. Mas sobre isso eu não permito que ele diga uma vírgula pra mim. Então, quando saímos para beber, ele me mostra seu celular lado B (ele tem dois, um que usa quando está com a esposa e outro que usa quando está sem ela) e começa a clicar nos recados apaixonados de suas namoradas. “Fê, você é demais”, “Fê, te amo, meu amor, vem aqui vai, preciso de você”. “Meu amor, vamos jantar hoje?”. Cada recado de uma tola diferente. Há, lógico, diversos. E ele se diverte e se enche de orgulho me mostrando um a um. Depois vem a sessão de fotos. E aí até que é legal. As fotos sempre são nos motéis. E lá estão elas, suas namoradas, em poses que vão das recatadas às mais depravadas. É o grande hobby de Fernando.

Ontem ele me ligou. Estava chateado. Saiu para conhecer uma nova vítima, quer dizer, garota, e só ficaram bebendo. Mas, no fim, ela fez uma chupeta e ele gozou na boca dela. Mas não estava bom. Uma hora da manhã ligou para a outra namorada. A empresária. Queria ir lá para fodê-la. A danada não atendeu. Então, magoado, Fernando ficou numa loja de conveniência no posto de gasolina perto da casa da empresária. Bebendo e amargurado. Mas, não demorou, e uma jovem loira aflita parou ali também. Como num toque de mágica, a moça puxou assunto. Ficaram conversando até às quatro da madruga. Trocaram telefone. E Fernando me contou que ela pareceu bem interessada. “Cara, uma loirinha linda. Só vendo mesmo. Muito linda”, ele me disse.

Não sei que merda esse sujeito tem. Muitas vezes passo dois meses sem trepar. Não me lembro de garota gostosa puxar papo comigo em lugar algum. O mais comum é quando passo despercebido. Também não me recordo da vez que trepei com uma garota diferente por semana. Pode ser vergonhoso, mas admito sem muita convicção que isso nunca ocorreu comigo. Dias desses sai com uma mulher linda e especialmente culta. Não rolou nem beijo. Falamos de livros, música e poetas anônimos. E nada. Nem um mísero beijo. O Fernando fica puto quando as coisas evoluem apenas para um boquete. Por isso não conto nada a ele sobre minhas saídas. Seria o mesmo que um pintinho contar a um lobo que conseguiu apanhar uma pequena minhoca. Hoje cedo me observei atentamente no espelho. Meu corpo está bem legal. Fisicamente estou muito mais em forma que ele. Acho que bem menos feio também. Não diria mais bonito, pois isso seria muito convencimento. Porra, mas ele é o grande fodedor. E eu, o discípulo de Onan. É, de fato, impossível entender as mulheres.    

 

 

 

 

  



Escrito por Cass às 15h03
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   Meu escritor cult

Me convidaram para o lançamento de um livro de um proeminente escritor latino-americano. O lance aconteceu num local que não me lembro o nome. Mas era demasiadamente chic. Coisa de bacana. Fui com um amigo. O Nico. A gente anda de moto juntos. Ele tem uma Harley antiga, de 1947. Câmbio na mão. Conhecida como “rabo-duro” porque não tem lá um sistema de amortecedores. Ou seja, dói o cu andar naquilo por muito tempo. A minha moto é japonesa, macia, anda bem. Fomos de moto. A gente sai toda terça-feira pra ir a um encontro de motociclistas. Tem show de rock e umas pervas. Mas nesta terça, como tinha essa boca livre, convidei-o para irmos lá e só o convenci ao lançar dois argumentos irrecusáveis: bebida boa de graça e mulheres tesudas circulando. Nico nunca leu um livro. Primeiro porque é quase cego, depois porque diz que não teria paciência. “Leio uma página e me dá um puta sono e tédio”, ele diz. Somos amigos de infância e desde sempre saímos para beber e arrumar mulheres. Ultimamente só bebemos. Não discuto nada de literatura com ele por razões óbvias. Mas, como bom amigo, ele umas vezes leu uns contos meus e me disse que gostou.

Chegamos ao local e a Harley do Nico faz um barulho infernal. As lindas e elegantes recepcionistas, desconsertadas pela brulheira, nos indicaram a entrada do evento. E lá estavam todos. Repórteres, colunistas, críticos e pessoas cults. Muito uísque, champagne Chandon e vinhos nobres. Num canto, num pedestal, havia o livro e uma forte luz o iluminava de cima para baixo como se a obra fosse algo enviado por ninguém menos que Deus. 

Nico chegou perto, olhou para os lados, pegou o exemplar iluminado e começou a folheá-lo desinteressadamente. De uma maneira delicada, porém resoluta, uma das recepcionistas foi até ele e, notei pelos gestos, orientou-o que os livros para esse fim estavam à disposição no balcão, bem do outro lado da sala. E apontou para lá. “E onde eu pego uísque”, ele disse. “Eles estão servindo”, ela respondeu com um sorriso opaco. Ficamos no uísque. Em uma parede aglomerava-se um pequeno grupo de pessoas. Não sei quantas. Mas bastante a ponto de chamar a atenção. Olhavam, não, não olhavam, liam, ou aparentemente liam uma ampliação de uma reportagem de uma revista moderna sobre o livro. O título era alguma coisa a ver com Peter Pan. E lá estava a foto do autor, com aquele ar sempre despojado. Quatro páginas sobre a obra. Muito elogiosa, a resenha. “Um autêntico talento da nova geração”, dizia um trecho do artigo. “Você é melhor que esse cuzão”, me disse Nico com o terceiro copo de uísque em mãos. “Que papo é esse, você nem leu o cara, que porra você tá me falando”, eu disse. “Ah, isso aí é história infantil, coisa babaca. Esse cara deve ser um burguezão da porra que serve bebida de graça pra agradar esses tontos que vêm aqui e essa capa de merda aí. Feia para caralho”. Essa foi a análise crítica que Nico fez em uma olhadela míope pela obra do recém consagrado autor. “Vamos dar um role e ver a mulherada”, eu disse.

Nico realmente olhava para a bunda delas. Não dissimulava seu interesse pelos rabos femininos. Olhava fixamente, virava a cabeça e posicionava suas vistas estrábicas ligeiramente para baixo para focar exatamente a bunda delas. Calor, vestidos curtos, soltos, leves. E bundas, muitas bundas. A melhor coisa dos eventos culturais, seja de qualquer vertente artística, além dos comes e bebes, é a vertiginosa libido das mulheres. Elas ficam excitadas com coisas culturais.

Eu tinha uma namorada que adorava foder depois de uma estréia teatral. Por isso eu vivia atrás de pré-estréias. Se houvesse um coquetel, tanto melhor. Ela ficava febrilmente excitada. E mulher só fode bem quando realmente está neste estado de torpor uterino. Quando trepa para cumprir tabela é uma merda. Dinão se atracou em uma conversa sem fim sobre seu assunto predileto, motos, com uma mulher de uns quarenta e tantos anos. Um mulherão mesmo. Peitos estufados pela tecnologia plástica, cintura e barriga esculpidas, quadril poderoso e uma bunda tentadora. Não usava aliança. Me afastei para deixá-los mais à vontade. E dei de cara com Gustavo, um jornalista mala que trabalhou comigo há centenas de anos na redação da Folha da Manhã. O cara estava lá ainda. Mas agora era sub-editor do segundo caderno. Grande merda. Continuava o mesmo boçal, só que com gel no cabelo e óculos com armação de osso de algum animal. Estava ali para entrevistar o tal escritor. Disse que o cara era avesso a entrevistas e tudo mais. “Ele é bom, um dândi, com certeza vai ser cultuado por mais umas dez gerações depois da nossa”, ele me dizia freneticamente. Quando cobríamos as merdas que aconteciam na cidade, mortes e tudo mais, ele tinha um jeito mais normal. Agora, não. Ficou afeminado, cheio de trejeitos. Não tenho nada contra homossexuais, mas não suporto homens que agem como putas escrotas. Se é para ser viado, que seja um viado simplesmente agindo como um ser humano. Sempre detestei gente espalhafatosa. Me desvencilhei dele com a desculpa de que a assessora de imprensa me chamava. Respondi a um aceno fictício dela e dei o fora.

Sozinho e sem interesse naquelas conversas, a única alternativa que me restou foi aproveitar a fartura gratuita de boas bebidas. Ataquei de uísque e canapés. Nico se deu bem. Largou a moto no estacionamento e foi foder no apartamento daquela mulher esculpida. Depois me contou, aliás relatar a trepada para um amigo é quase tão bom quanto o gozo, que foi uma das melhores metidas de sua vida. Eu não me dei tão mal. Na hora da debandada a assessora de imprensa ficou ao meu lado. Conversamos animadamente. Eu já estava bem alto e nesse estado a gente sempre fala animadamente seja qual for o assunto. Era uma garota linda e gentil e eu não me lembro de nada de que falamos. Me deu um exemplar do livro de presente e me passou o cartão dela para mantermos contato. Escrevi, ela respondeu, e trocamos idéias sobre um monte de assunto. Ela tem 28 anos, é noiva, e acenou que está de saco cheio do cara. Eu não a amo, nunca vou amá-la. Mas a danada é gostosa. Melhor que fique com o noivo e que trepe comigo vez por outra. Li algumas páginas do livro do sujeito badalado. Achei uma merda e dei de presente para Rita, uma jovem estagiária que trabalha comigo na editora. Ela está adorando, me diz que devora vinte páginas por dia. Ficou bem agradecida. Essa está quase no papo. É bem provável que teremos uma bela foda antes do ano acabar. Devo muito a esse escritor. Para mim ele já é cult. Até o Nico, sempre avesso à literatura, me disse que nunca mais vai esquecê-lo.    



Escrito por Cass às 15h12
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   Don Juan às avessas

Há mais de duas décadas cultivo duas manias similares e inúteis. Uma é ler e outra, escrever. Tirando livros de auto-ajuda e espírita, leio de tudo. Não, espera. Mentira. Não leio de tudo. Seria impossível. Há pelo menos três mil anos que temos coisas escritas no mundo. Nem tudo é bom, mas sem dúvida que há milhares de obras excelentes. Alguém já imaginou isso? Três mil anos de letras. São trolhões de histórias publicadas. Com certeza deve haver milhares bem semelhantes. Mesmo se um sujeito fosse muito bom em leitura dinâmica penso que seria impossível ler, sequer, todas as obras dos autores mais célebres dos Séculos dezenove e vinte. Ainda assim há tolos como eu que se arvoram a escrever. Tentam, inutilmente, criar alguma coisa inédita.

Situação semelhante acontece com a música. E, neste ponto, embora tenha sido por pura falta de talento, abandonei a carreira de tocador de guitarra ainda na adolescência. Meu rock era excessivamente primário, quase débil. Se bem que só me meti a fazer isso para tentar comer algumas gurias. E nem funcionou a contento. Decidi cair fora. Havia muita gente fazendo música de qualidade. Um monte de bandas com ótimos tocadores. A diferença é que a barulheira encobre as cagadas. E a beleza dos tocares, quando há, dá uma boa força diante da falta talento. Nesse meio ser bonito já é um passo e tanto rumo ao sucesso. Já na escrita, ninguém vê sua cara. É mais difícil enganar. O problema é que você está sempre competindo com celebridades. Penso que para ser um escritor minimamente tranqüilo, sem complexo de inferioridade, é recomendável não ler nada de Kafka, nem Dostoiévsk, nem Camus, nem Machado, nem Paulo Mendes Campos. Fique com os triviais, que prefiro não citar os nomes.

Não vendo e nem dou meus livros. Guardo todos que compro. Tenho um quarto com mais de mil obras. A maioria comprada em sebos. Já li mais da metade, mas ainda há centenas para serem lidas. Tenho certeza que não conseguirei, mesmo lendo, simultaneamente, de quatro cinco livros de uma vez. Faço isso não pela pressa, mas porque fico enjoado se me ater a uma única história. E tenho algum distúrbio que me impede de ficar fixado por muitos dias em um único assunto. Então vou variando. A cada momento de ócio, uma leitura diferente. E os momentos se distribuem pelas madrugadas insones, logo cedo e à noite. Durante o dia tento achar algo novo em blogs. Afinal é aqui que estou. Sou um escritor sem obra publicada. Quer dizer, tem lá um livro. Mas foi um lance muito caseiro. Então, não tenho nada. Apenas blogs que uso para publicar meus continhos. Não sei como daria para colocar um romance num blog. Acho que não daria. E mesmo se desse, seria tolice. Ninguém vai ler uma história longa na tela de um computador.  Eu mesmo detesto livros com mais de trezentas páginas. Dostoiévisk tinha essa mania. Escrevia demasiadamente. Poucos de seus livros têm menos que duzentas páginas. Bem, naquele tempo não havia nem televisão. Quem dirá, internet.

Escrevi tudo isso para contar um fato trivial. Por esses dias conheci uma garota que detesta ler. E ela contou isso logo no início de nossa conversa. Daí, em seguida, me perguntou o que eu fazia. Pensei em mentir. Mas tinha que responder rápido e não sou bom em mentiras. “Eu escrevo”, eu disse. Ela riu. Eu ri também. Ela tinha um sorriso sensual. Daqueles que formam duas covinhas  nas laterais dos lábios. Lindo. “E você escreve o quê? Cartas?”, ela disse e caiu na gargalhada novamente. Vinte e quatro anos. Cara de dezoito. Meio tontinha, mas muito gostosa. Estava ali como acompanhante da amante do Fernandinho. E eu, amigo é para essas coisas, fui com ele para ficar dois pares na mesa do bar. Nessa hora o Fernando e sua amante já haviam se levantado com uma desculpa tola e se amassavam nos fundos. A coisa estava pegando fogo com eles. Era um bar escuro, tipo boate decadente, com um horrendo cheiro de naftalina. Fica bem perto da represa na velha estrada que ligava São Paulo a Santos. Lugar antigo. No meu tempo a gente chamava aquilo de “cemitério de cabaço”. Nada mais óbvio. Não mudou nada. Escuro, asqueroso e deprimente. Eles colocam uma porra de uma meia vela acesa dentro de um vidro encardido e ensebado. Eu apaguei. Velas, como flores, me lembram defuntos. E a trilha sonora são aquelas canções de sala de espera de dentistas ou puteiros de periferia. “Isso, escrevo cartas”, eu disse. Nessas horas queria mesmo saber ser mais envolvente, mais charmoso e menos estúpido. Com certeza eu me daria bem. “E isso dá dinheiro?”, ela perguntou fazendo uma careta de deboche e tossindo outra sessão de risos, desta vez mais estridentes e brochantes.

“To afins de te dar uns beijos”, eu disse na falta de qualquer outra coisa interessante a dizer uma vez que nosso assunto já estava mais do que perdido. “ah, é, e você diz isso para todas?”. Me dei conta que não me lembrava mais o nome dela e fiquei sem jeito de perguntar. Por isso nem vou aqui mencionar. “É, eu digo para todas quando sinto vontade de beijar e transar”. Tenho esse problema. Na falta de assunto uma aterradora franqueza toma conta de mim. “Nossa, então eu sou apenas mais uma, é?”. Beco sem saída. Era, com certeza, uma idiota completa. E aquilo não evoluiria jamais para uma foda razoável. Estava tudo perdido. Mas ainda tentei consertar. “Não, esta noite você é exclusiva. A melhor de todas”. Ela riu, mas desta vez não achou muita graça pois foi um riso curto, meio irônico. Algo como um suspiro inconformado. “Tá tarde, preciso ir embora”, disse bem seca e calou-se olhando fixamente para a negra noite lá fora. Pensei em tentar mudar o quadro. Pedir perdão. Ser mais dócil. Mas achei melhor deixar assim. “Espera, vou chamar o Fernando, também preciso ir embora”, eu disse e fui até lá atrapalhar o tesão alheio. Ele ficou puto. Me xingou no carro. “Se você quer trepar mais tem que aprender a mentir e ser paciente”, me disse. Nisso ele tem muita razão. 



Escrito por Cass às 16h26
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   Uns dias com vista para o mar

Não é difícil se sentir um idiota. Na verdade, via de regra, somos idiotas, pois acreditamos em uma porção de tolices diariamente bombardeadas em nossas mentes, vestimos tudo isso, nos esbaldamos em bosta na sede de conhecer um pouco mais do mundo. Ou, pior, apenas tentando ser normal. Mas nos tornamos ainda mais estúpidos quando nos travestimos de diferentes. É preciso um grande esforço para se destacar nesta manada humana tediosamente igual. Então o sujeito se fode todo pra ser diferente. Minha mãe dizia "quer aparecer, pendura uma melancia no pescoço". Eu não entendia muito bem esse troço, mas hoje, observando com mais atenção as pessoas, agora sim, hoje em dia compreendo direitinho essa suburbana sabedoria popular. Não suporto gente que se esforça para ser diferente. É, de fato, um beco sem saída. Ou somos tolos ou estúpidos.

Por mais de uma dezena de dias não fiz nada além de cozinhar e beber. Sim, li Henry Miller na sagrada hora de cagar. Terminei um pequeno conto dele nas incursões ao vaso sanitário. Um livro de 120 páginas sobre suas aventuras em Paris. Livro bom é livro curto. Penso em quantas cagadas seriam preciso para ler um Joyce, por exemplo. Crime e Castigo me consumiu um ano e meio de banheiro. Muitas vezes mijo sentado só para poder ler uma ou duas páginas. Mas é isso, quase duas dezenas de dias vendo o mar ao longe, cachaça mineira, cerveja e uma porção de panelas dos mais variados tamanhos para curtir meu passa-tempo predileto: cozinhar.

Casa velha e ampla no alto do morro em um sitio afastado na Ilhabela. Bem longe dos agitos e das praias. O terreno acaba nas redondas pedras que se precipitam ao mar aberto. Ali jaz o velho Velasquez, um navio espanhol que se estrepou e foi a pique ao bater nas terríveis pedras da ilha. Os pedaços dele, pesados, sombrios e enferrujados, ficam ali, à mostra, como para dizer, "aqui é foda gente, não é lugar pra curtir não, aqui morreu muita gente". As ondas são pesadas, bêbadas, cantantes, insolentes. Ninguém se atreve sequer a botar o pé naquela água nervosa. E não tem areia alguma, isso é algo bom, apenas o cheiro da maresia. 

Inventei diversas receitas exóticas e como havia uma certa fartura, em algumas delas, salpiquei maconha no lugar do orégano. Os pescadores dali há tempos trocaram a rede pelo tráfico. São traficantes interessantes, quase todos, bem, não sei se todos, pois só tive contato com um pequeno grupo, são religiosos. E eles apenas disseram que ali todos frequentam a igreja do reino de deus ou coisa que o valha. Não sei ao certo. Tem um templo todo azulado com letras doradas no meio da mata. E eles te entregam a erva ali mesmo, ao lado da igrejinha. É muito barato. Cinco paus por uma porção bem servida. Por dez contos te entregam três pacotes. Pechinchei um bocado e, por fim, paguei 20 por uma quantidade extraordinária de maconha prensada e curtida no mel. 

A culinária ficou espetacular. A degustação dos convivas, obviamente que estimulada pela erva, beirava o endeusamento. No fim do dia criei um hábito: ver o pôr do sol. Acendia um bom baseado, enchia meu copo de cachaça e me sentava na grande varanda para ver aquela enorme bola incandescente descer lentamente ao mar e depois que sumia sua luz fosforecente, avermelhada, ainda penetrava no céu do lado oposto dando às nuvens formas deslumbrantes e conferindo às montanhas uma silhueta púrpura estarrecedora. Aquilo tudo dava um tesão danado, mas como não havia mulher, o melhor a fazer é simplesmente pensar na poesia do momento. Foi o que fiz. Uma espécie de reza aos deuses que, diariamente, nos proporcionam tal espetáculo. Mesmo em dias nublados, ali, atrás das densas e cinzas nuvens, está o poderoso sol fazendo exatamente a mesma coisa descrevendo seu semi círculo sobre nossas cabeças apavoradas.

Eu não sei porque caralho estou dizendo tudo isso, quando apenas conclui numa dessas tardes que somos irreversivelmente idiotas. Trabalhando ou vagabundeando, somos tolos. Não há jeito de ser diferente. Se ficamos sóbrios, regrados, somos trapaceados e nos fodemos. Se bebemos todas, ficamos loucos, e a gente se ferra do mesmo jeito. E se ficamos ali, bestamente, estáticos, do tipo zen, apenas vendo a porra do pôr do sol, ainda assim um bando de insetos insignificantes nos vampirizam dolorosamente. Chupam nosso sangue. E outros, ainda mais terríveis, zunem em nossos ouvidos. A floresta nos rejeita. A cidade nos rejeita. O mar, bronqueado, puto da vida, nos rejeita e afunda nossos velhos navios matando nossos ancestrais.

Um pensamento tolo me passa pela mente. Suicidio. Seria simples me atirar dali de cima da rocha que eu alcançaria sem dificuldade. Havia até uma escadinha até ela construída para melhor apreciar o céu crespúscular. O argentino dono da casa que fez. Coisa caprichada. É subir ali, respirar fundo e se atirar para baixo. Pronto. Morte instantânea. Acho que dá uns trinta metros de altura. E, lá embaixo, é mar dando porrada nas pedras. Morto, lavado e tragado para o mar. Num instante e somos rango de camarões, esses abjetos seres marinhos. Mas é só um pensamento. Imediatamente depois me vem em mente a formosa bunda da caiçara que contratei para limpar a casa. Ela é desdentada, acho que teve varíola, pois a cara tem marcas severas, mas deixando cara de lado, do busto pra baixo é um espetáculo. 

Surge a lua e a estrela. Brilham suavemente. Os pernilongos picam famintos devorando nossas partículas que sangram, coçam. Mas fica a imagem da doméstica tesuda, libidinosa. Talvez se eu a abordasse amanhã. É, é isso mesmo. Não vale a pena morrer sem antes dar uma boa trepada com ela. E se tenho alguma razão em minha teoria, dentro dessa perspectiva de que somos todos tolos, não vai ser difícil convencê-la a uma trepada comigo. Ou talvez ela não seja suficientemente idiota. Neste caso, posso oferecer uma permuta. Quem sabe uns cinquenta mangos.           

   



Escrito por Cass às 21h49
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   Uma volta pelo cemitério já é algo legal para começar o ano novo

O cemitério estava quase vazio naquela primeira tarde de 2007. O grande portão de ferro enferrujado permanecia trancado com uma corrente ocre e um cadeado decrépto de aparência frágil e fantasmagórica. Cassiano abaixou-se e entrou pelo buraco na cerca logo ao lado do portão. Cuidou para não pisar nas tigelas e garrafas quebradas que na noite anterior, de fim de ano, foram oferecidos aos orixás. Fez o sinal da cruz, pediu licença às almas ali depositadas, e seguiu caminhando pela alameda central rumo à pequena capela das treze almas. Ali estão treze pessoas não-identificadas que morreram no grande incêndio do Joelma em fevereiro de 1974. Se transformaram, no culto popular, numa espécie de santos anônimos ignorados pela igreja e ficaram assim conhecidos: treze almas. Sem nomes, sem parentes, mas cultuados por uma multidão de devotos, especialmente os moradores pobres da periferia da zona leste paulistana. Uma grade de ferro os isola dos mortos comuns. E ali é um espaço perene, apenas deles, doado pela prefeitura, cuidado com esmero pelo senhor Luiz, um devoto já bem cansado e razoavelmente idoso. Alguém construiu no local, logo no início, uma pequena capela de madeira com a imagem de nossa senhora imperando num altar pequeno e modesto. Outro alguém colocou ali uma grande bíblia. E isso conferiu ao lugar tons sagrados. Uma infinita quantidade de placas de mármores, agradecendo por graças alcançadas, cobre o chão de terra onde se alinham as treze covas e, numa extremidade, a estátua de quase três metros do cristo na clássica posição com os braços abertos. Na outra ponta, um canto para acender velas e fazer orações. Centenas de pessoas visitam o local diariamente, muitas aproveitam o enterro de parentes e conhecidos pra dar uma passada por lá. Mas naquela primeira tarde de 2007 apenas Cassiano rumava resoluto para as treze almas.

Era um cemitério grande, do tipo tradicional, onde as covas têm cara de cova mesmo. Cemitério de gente simples. Havia chovido e a lama atravessava a rua que circundava todo aquele espaço. Chovera torrencialmente na passagem de ano e como ali era uma colina a enxurrada desterrara algumas sepulturas exibindo pedaços de caixão, coroas estrupiadas, flores esmagadas e muitos tecidos com predominância de lilás e amarelo. A força das águas carrega a terra fofa para o asfalto, muitas vezes leva consigo flores, placas e pedaços de caixões já carcomidos pelo tempo. Não raro também deslizam abaixo ossos ou até mesmo esqueletos inteiros ainda vestidos com seus farrapos mortuários. Fica tudo depositado na parte baixa e os cães miseráveis fuçam ali, chafurdam como porcos, buscando sagazmente alguma coisa que seja comestível. É cena comum na temporada de chuvas. Os coveiros trabalham sem parar e arrumam tudo, botam os féretros de volta aos buracos como se, feito almas penadas, tivessem todos saído para dançar sob as águas. Muitas vezes erram os buracos, trocam os caixões. Invertem tudo. Mas não se importam, já que os parentes nunca ficam sabendo. Cassiano sabia, pois andava sempre por ali, caminhava diariamente no cemitério. Não por ter qualquer inclinação macabra, mas simplesmente porque era ali que encontrava paz para fazer suas reflexões peripatéticas e, também, curtir alamedas. Adorava andar por alamedas e, na periferia, só havia essa, a do cemitério. Grandes árvores a cada cinco metros da rua asfaltada. Havia ali o frescor pacífico das sombras, o canto dos pássaros e o perfume, embora muitas vezes conspurcado por carniças, das folhas untadas de orvalho.

Cassiano manteve sua marcha. Do portão até a capelinha das treze almas dava quase um quilômetro entrecortado por uma leve descida, uma pequena reta e uma acentuada subida. Na pequena reta, situada na depressão do terreno, era onde se depositava o lixo e a lama trazidos pelas águas. E onde estavam os cães, urubus e alguns ratos também. Seres que, concentrados em seus afazeres, de maneira soberba, ignoravam Cassiano e, por ele, também eram ignorados. A subida logo em seguida exigia um certo esforço físico e a respiração, além de ofegante, penava devido aos odores nada agradáveis uma vez que o vento norte empurrava o mau cheiro da reta para aquela área. O esforço exigia mais ar no pulmão e o preço era aspirar o fedor intensamente. Puxar tudo para dentro com força e resignação. O jeito foi abaixar a cabeça, puxar a gola da camiseta de modo a cobrir a boca e o nariz, e seguir a rápidas passadas ladeira acima. “A vida fervilha e abunda entre os mortos”, pensava Cassiano. Do seu lado esquerdo o grande muro cinza, poluído com velhas placas, sujo e quase que totalmente tingido por manchas feitas pelas chamas das velas, guardava os ossos dos mortos há muito tempo. Do lado direito as covas decoradas com grama e azaléias. Gente recém sepultada. Mais alguns passos e Cassiano é surpreendido pelo frescor suave das goiabeiras. O vento muda de direção, agora vem de outro ponto cardeal, talvez noroeste. Traz consigo o perfume de terra úmida salpicado com folhas verdes. Alívio. Cassiano pára para tomar fôlego. Respira com mais vontade, sente-se bem. De cima, repousando um pouco, olha o horizonte inclinado, vê até onde a vista alcança, centenas de campas coloridas e, curiosamente, todas parecem muito alegres. O cemitério, daquele ponto, ganha tons quase festivos. Parece mesmo um idílico bosque de contos de fadas.

A igrejinha está a poucos metros. Azul, simples, com telhado de duas águas. Mas não há ninguém. A grade fechada impede a entrada no recanto das treze almas santas. O céu está em tom alaranjado, o sol tenta jogar seus raios pra fora mas é solenemente impedido pelas grandes e negras nuvens encorpadas como esponjas repletas de água. O vento faz as folhas vibrarem, precipita-se uma repentina chuva falsa vinda das árvores. Cassiano fica ali, parado, contemplando tudo aquilo. Agradece as treze almas, reza ao seu modo. Não é católico, não gosta de ser nada em religião. Apenas conversa com as treze almas e gosta da imagem de nossa senhora negra. Também lhe agrada uma capelinha simples no meio do cemitério. Silenciosa e solitária. Pobre, de madeira e pintada com tinta barata. Nada sente diante da capela sistina, mas ali, defronte daquela obra tão singela, parece ser possuído por sopros divinos. Porém sabe que são sensações que ele mesmo quer ter. Não se ilude com metafísicas. Faz o sinal da cruz e segue na parte alta do cemitério. Sente-se aliviado. Tira do bolso um baseado, acende e fuma tranqüilamente, em passadas lentas, saboreando o momento. As nuvens se ajuntam numa união conspiradora. Luzes no céu, flashes instantâneos. Depois um rufar de tambores celestiais e assustador. O som ecoa por aquele imenso vazio sepulcral. Sobre Cassiano paira a aromática fumaça mágica. Alguma coisa bem que poderia acontecer nesse cenário todo. Mas não ocorreu nada demais. Como de costume, Cassiano rumou para sua casa e nem sequer tomou chuva. Assim que chegou ligou para Dolores. Ela propôs um cinema, ele sugeriu uma trepada. Assistiram “Amores Brutos” na casa dela. E gozaram juntos depois, como há muito tempo não acontecia.       



Escrito por Cass às 13h45
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   Somos todos iguais no amor e na hipocrisia

 

Por fim esqueci o velho amor. Levei mais tempo que qualquer outro mortal, mas obtive êxito. Restam ainda alguns trapos sujos atados sobre a ferida. Se removê-los, sangra, fede. É melhor não mexer. Esses dias eu a vi. Me pareceu opaca e sem viço. Andava de mãos dadas com um sujeito meio bobalhão. Aquela visão, que outrora eu tanto temia, me deu uma agradável sensação de vitória. Sei que isso é patético, mas é a vida. Creio que se a visse linda, brilhante e com um cara bem apessoado eu iria me sentir o grande otário. Um derrotado. A gente é hipócrita pra cacete.

O importante é que me sinto revigorado. Por isso Vince me convidou para ir com ele para Índia e passar as festas por lá. Ponderei, fiz as contas e desisti. Seria interessante, mas ainda prefiro gastar grana para conhecer o Brasil. Depois de voltar de Porto Alegre, em breve vou percorrer os rincões de Santa Catarina, conversar com antigos pescadores em Itajaí, e aí sigo para Mato Grosso. Há uma cidade cujo nome me intriga: Sonora. Parece nome fictício. Mas está ali no mapa. Vou para a idílica Sonora. Me parece mais interessante que Nova Delhi.

Talvez em Sonora eu conheça o amor de minha vida. E vai ser uma garota linda. Mas, como sempre, estarei diante de um amor épico e impossível. Essa é minha sina. É provável que seja jovem demais. Eis ai o primeiro percalço. Qual a distância de São Paulo a Sonora? Não faço a menor idéia. Mas bota mais de mil quilômetros aí na conta. Pronto, outra grande dificuldade. Tem mais. A jovem garota estará grávida. Isso. Grávida. Esperando um lindo bebê e o pai, um cara bem sucedido, e ciumento pra caralho, de alguma maneira vai saber que eu existo e terá em mente duas coisas: me matar ou convencer meu amor que sou um grande calhorda. Talvez execute essas duas tarefas com extrema competência.

Essas são as probabilidades. Por isso não vou à Índia antes de ter um grande amor de verdade. É muito risco. Ando carente, e todo carente age como um perfeito safado. A gente fica sem transar por muito tempo e começa a ter atitudes deploráveis como tentar trepar com uma garota sem a devida paciência para as preliminares que, via de regra, invariavelmente no meu caso, levam-se dias, semanas ou meses. Para obter algum êxito no sexo preciso me manter em forma, tenho que apresentar atrativos físicos. Esse é o lado bom. Talvez se eu estivesse satisfeito sexualmente eu poderia estar flácido e gordo. Como não estou, preciso cuidar assiduamente do corpo para, com ele, seduzir as mulheres. Para um contumaz bebedor de vinho isso não é exatamente uma tarefa das mais simples. Via de regra acordo de ressaca, mas preciso caminhar, suar, queimar calorias. Tudo isso para, de alguma maneira, instigar as mulheres.

Dizem que postura e bom papo conta pontos na arte da conquista. É pura balela. Nunca vi homem com boa postura tampouco com bom papo. São todos uns fingidos. Fingem para conseguir foder. Depois voltam à normal boçalidade. E muitas mulheres só descobrem isso um ano depois da lua de mel. Eu prefiro ser mais honesto, não tenho boa conversa. Não sou especialista em nada, não coleciono nada, não entendo de muita coisa a fundo e tenho pouca paciência para discutir assuntos que não me interessam. Gosto um pouco de história. Mas nunca encontrei uma garota que tivesse prazer em discutir história. E mesmo se encontrasse, creio que não há nada a se discutir. Então sou um cara sem muitos assuntos.

Tenho uma mórbida inclinação a me envolver em intensos amores impossíveis. Não sei exatamente como isso ocorre comigo. Pode apenas ser uma forma de auto-defesa. Ou, simplesmente, auto-flagelo.

No fundo queria mesmo amar. Ainda que fosse algo nas raias do improvável, não me importa. Seria bom amar e ser amado. Bem simples. Sei que pode parecer piegas, mas seria fantástico ir para a Índia com meu amor. Andaríamos de mãos dadas e eu ali com a mais genuína cara de pamonha bonachão, bem bobalhão mesmo. Talvez ela até parecesse, a olhos alheios, sem brilho, sem viço ou até mais feia. Mas que se foda. A magia dos amantes é muito privativa, nunca se mostra aos outros. Ainda que tudo isso fosse para o esgoto depois da lua de mel. E mesmo se nem houvesse uma junção. Não me importaria. O amor vale sempre a pena. Mesmo quando nos torna, por um tempo, idiotas explícitos. Sim, porque sem amar, somos espertamente idiotas dissimulados. 



Escrito por Cass às 15h39
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   Temos todos nosso momento gay

-         Alô...

-         Cass?

-         Opa, belê?

-         Eu sou gay!

-         O que?

-         É o que você ouviu. Eu sou gay!

-         Que porra? Você me liga de madrugada pra me falar merda? Tá bêbado?

-         Bebi um pouco, refleti, tô triste, me sinto só. Sou gay.

-         Caralho, eu também bebi, fico puto e muitas vezes me sinto só. Isso não me transforma num veado. Meu, vai dormir, depois a gente conversa...

-         Não tô nada bem...

-         Queque há?

-         Tenho vontade de chupar um pau, penso nisso e me dá um puta tesão!

-         O que?

-         Isso mesmo que você ouviu!

-         Não ouvi...

-         SINTO VONTADE DE CHUPAR UM PAU, PORRA! OUVIU AGORA?

      -    Não precisa gritar...ouvi! E daí?

Escrito por Cass às 13h51
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   continua...

-         Oras, isso me transforma num gay, não?

-         Acho que sim!

-         Você já sentiu vontade de chupar um pau?

-         O meu, talvez...quando garoto! É normal...

-         Você me deixaria chupar seu pau?

-         Cara, de boa, tu tá chapadão. Vai dormir...

-         To falando sério...me deixaria?

-         Claro que não!

-         Tá vendo...a gente nem pode contar com os amigos!

-         Tá, a gente se fala amanhã! Boa noite...

-         Não desliga...por favor! To mal, é sério!

-         E a Patrícia?

-         Faz tempo que a gente não se fala...

-         Liga pra ela...

-         Mas ela não tem o que quero...

-         Porra, vai se foder e não me enche o saco. Você tá bêbado!

-         Cass...

-         Fala...

      -     Me deixa chupar seu pau...



Escrito por Cass às 13h51
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